BORRALHO -
FESTIVAL DE INVERNO PARA PEQUENAS PEÇAS À BEIRA DO FOGO
8 e 9 de fevereiro, Bairro Municipal Viseu
16 de fevereiro, Varzea de Calde
23 de fevereiro, Aval e Silgueiros de Bodiosa
2 de março, Moinhos da Gândara (Figueira da Foz)
9 de março, Bairro de Celas (Coimbra)
23 de março, Vila Chã (Covas, Tábua)
Os serões da aldeia serviram de inspiração à nova criação do TEP para a
Rede Artéria, um projeto de intervenção sociocultural coordenado
pelo Teatrão, de Coimbra. Com estreia marcada para fevereiro,
Borralho - Festival de Inverno para Pequenas Peças à Beira do Fogo é
apresentado em Viseu seguindo, em março, em itinerância, para outros
concelhos da Região Centro.
Sinopse
A Odisseia não é só de Ulisses:
Penélope, Telémaco, Eumeu, Melântio, Euricleia e a própria deusa
Atena também fazem parte da história, entre outras personagens da
Grécia antiga. E não é só de Homero, mas de todos os que leram e
releram os seus versos. Em Borralho - Festival de Inverno para
Pequenas Peças à Beira do Fogo, o TEP adaptou a história do regresso
de Ulisses à região de Viseu, misturando a ficção e o mito gregos
com factos históricos e casos pessoais, que vão da emigração à
guerra, dando origem a seis personagens contemporâneas, mas
evocativas das personagens gregas. Estas personagens mistas vão
receber os espectadores na própria casa, nos espaços autênticos dos
moradores do Bairro Municipal de Viseu, da Várzea de Calde, de Aval
e de Silgueiros de Bodiosa, que serão transformados para imaginar
como seria esta história, se tivesse acontecido em Viseu.
Conceção e
Encenação: Gonçalo Amorim
Texto e Dramaturgia: Jorge Louraço
Direção de atores e Assistência de encenação: João Miguel Mota
Realização Plástica: Catarina Barros
Sonoplastia e Direção Musical: Ana Bento
Direção de Produção: Teresa Leal
Produção: Joana Mesquita
Direção Técnica: Cristóvão Cunha
Pequenas Peças: Atena | Sónia Barbosa;
Penélope | Bárbara Soares; Euricleia | Roberto Terra; Melântio |
Hugo Inácio; Eumeu | Ricardo Augusto; Nausícaa | Diana Narciso
Coro: Bárbara Soares, Diana Narciso, Emanuel Santos, Hugo Inácio, João
Figueiredo, Lara Cyndi, Pedro Catalarrana, Ricardo Augusto, Roberto
Terra, Sandra Correia, Sónia Barbosa
Duração: 100 min. |
Classificação etária: M/12
"O caminhar considerado como uma
combinação de movimento, humildade, equilíbrio, curiosidade,
cheiros, sons e luz e um sentimento de desejo. Um sentimento de
querermos alcançar alguma coisa que procuramos, sem a encontrarmos.
Na língua portuguesa existe uma palavra intraduzível para este
sentimento: saudade."
Erling Kagge em A Arte de Caminhar
Neste Borralho Festival de Inverno para Pequenas Peças à Beira do Fogo,
o Teatro Experimental do Porto persegue uma ideia de comunidade e de
empatia. Partimos do levantamento feito pel'O Teatrão no concelho de
Viseu, e identificámos algumas ideias contidas nesse relatório como
basilares para o nosso trabalho: a descentralização; o trabalho com
profissionais, amadores e escolas do concelho; a relação com
profissionais vindos de fora do concelho. Quisemos então pensar em
algo que se ajustasse a estes princípios e que também pensasse o
"fora de época alta" para as actividades culturais, neste caso o
Inverno. Lembrámo-nos da importância dos serões da aldeia, nas
regiões mais frias do país, de quais os trabalhos pensados para o
Inverno: a poda da vinha, o fiar do linho, o contar das histórias ao
borralho, a leitura do borda dágua, o preparar o que aí vem...
Como poderia ser interessante, convidar habitantes da região a abrir as
suas casas para que se contassem histórias à beira do fogo?
Fomos então à procura de actores profissionais e amadores para nos
acompanharem e fomos também à procura de bairros e freguesias do
concelho de Viseu, para nos acolherem. Os actores escolhemos em dois
fins-de-semana de audições muito concorridas, em que chegaram a
Viseu actores profissionais de todo o país. Seleccionámos dez, sendo
que mais de metade são de Viseu. Convidámos a Sónia Barbosa para se
juntar ao elenco, a Ana Bento para fazer a direcção musical e o
Cristovão Cunha a direcção técnica. A escrita do texto iria ficar a
cargo do Jorge Louraço Figueira, a direcção de actores do João
Miguel Mota e a direcção plástica da Catarina Barros. Fundimo-nos
artisticamente com parte da comunidade artística de Viseu, e que bom
que está a ser!
Quanto aos locais escolhidos tivemos a felicidade de
ir ao encontro dos presidentes de Junta de Várzea de Calde e da
Bodiosa, que nos foram apresentando membros da sua comunidade e
também tivemos a felicidade de que os habitantes do bairro municipal
de Viseu tenham tido a confiança em nós para nos mostrarem os seus
borralhos. Enquanto isso vamos também colaborando com o Instituto
Politécnico de Viseu e com os seus estudantes e professores.
E que histórias iríamos contar? Queríamos fundir o presente e o passado,
queríamos falar de algo ancestral mas que olhasse para agora,
queríamos que os temas fossem: a emigração, a guerra, o amor, a
saudade, a política, o tempo, o caminhar. Queríamos convocar os
espectadores para uma experiência comunitária única, à volta do
fogo. Escolhemos o último capítulo da Odisseia de Homero, o capítulo
do regresso a casa e o da matança e exílio. Pedimos aos actores que
nos acompanham grande autonomia artística no tratamento destes
materiais, na escrita do texto, na criação das pequenas peças. Ao
mesmo tempo vamos trabalhando uma unidade plástica, sonora e
conceptual. Convidaremos os espectadores, a andar, a circular,
passando por ambientes rituais, outros animalescos e primitivos,
outros etéreos e políticos. Momentos mais íntimos, outros públicos.
Tentaremos parar o tempo, dilatá-lo, dando-lhe ancestralidade, mas
também aprimorando os sentidos, para que possamos olhar, cheirar,
sentir, para que a velocidade dos nossos dias não nos impeça de
sentir empatia pelo outro, escutar o outro. Para que tomemos em mãos
o nosso destino, em conjunto.
Gonçalo Amorim, Encenador e director
artístico do Teatro Experimental do Porto