Nota introdutória:

- Este excerto, parte final do texto de Júlio Gago, “Momentos do TEP – Dados Históricos”, inserido neste site, figura também provisoriamente aqui, sendo brevemente substituído.

 

O TEP EM VILA NOVA DE GAIA

Analisada a situação em reunião de Direcção, chegámos à conclusão de que o concelho de Vila Nova de Gaia era o que tinha melhores condições para nos receber, assim o entendessem os seus responsáveis máximos. Após um primeiro contacto exploratório com Júlio Martins, da assessoria de imprensa da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, e velho companheiro destas andanças teatrais, telefonei ao Dr. Pedro Vinha Costa, amigo de Luís Filipe Menezes, que nenhum de nós conhecia pessoalmente, perguntando-lhe se ele achava que o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia poderia estar interessado nas propostas que tínhamos para lhe fazer. O Pedro Vinha disse-me que me dizia alguma coisa na semana seguinte, mas, telefonou-me logo, dez minutos depois, dizendo: - O Menezes recebe-os dentro de dois dias. às tantas horas, porque hoje e amanhã não pode. E, conforme o combinado, deslocámo-nos em representação do CCT/TEP, eu, o Dr. Serafim Nunes, o Eng. Aureliano Veloso, o Eng. Sousa Baptista e o Arq. Norberto Barroca, chegando a um consenso, na sequência da disponibilidade de Luís Filipe Menezes para receber a associação e a nossa companhia profissional em Gaia. Lealmente, e isto prova a forma de actuar de Menezes, avisou Fernando Gomes do contacto e do interesse na instalação do TEP, ao que o Presidente da Câmara do Porto lhe pediu uns dias para conversar connosco, reunião que foi feita, e onde ficou claro que a única hipótese de continuarmos a nossa acção era em Vila Nova de Gaia. No espaço de um mês, em reuniões sucessivas com Menezes e o seu Gabinete, ficou elaborado o Protocolo entre as duas entidades, assinado no Salão Nobre do Município de Vila Nova de Gaia. em 27 de Março de 1999, Dia Mundial do Teatro.

Previamente, foi convocado o Conselho Cultural, em 12 de Março, que deu parecer favorável, por unanimidade, à deslocação para Vila Nova de Gaia. realizando-se em 15 de Março de 1999, uma Assembleia Geral Extraordinária, nos termos estatutários, para analisar a proposta da Direcção sobre a mudança da sede social, que veio, também, a ser aprovada.

A companhia profissional foi reconstituída, após uma curta paragem de dois meses, mantido o director artístico, Norberto Barroca, que assumira, pela primeira vez, estas funções, ainda no Porto, em Janeiro de 1998, e foi este que preparou o primeiro espectáculo de Gaia, o 178° do itinerário do TEP, precisamente "A LENDA DE GAIA", de Almeida Garrett, na versão de Manuela Machado. Espectáculo de grandes meios, utilizou o próprio rio, onde pequenas embarcações o integravam, e o espaço do cais de Gaia, com uma cenografia de vários palcos, a que o espectador assistia em três bancadas criadas para o efeito. Participaram nesta nova peça, não só os profissionais do TEP, como 102 figurantes, oriundos das associações culturais e desportivas gaienses, Centro de Recreio Popular de Arnelas, Centro de Recreio Popular de S. Tiago, Grupo Recreativo Mocidade Corveirense, Spoting Clube Candalense, Tuna Musical "A VENCEDORA"de Vilar de Andorinho, Tuna Musical de Santa Marinha, Grupo Benificente "Os Amigos dos Pobres de Grijó", Clube Náutico de Crestuma, Academia de Música de Vilar do Paraíso, Associação Recreativa "Os Mareantes do Rio Douro", Grupo Paroquial e Recreativo de Mafamude, Escola de Dança Ginasiano, oito cavaleiros e os técnicos do Auditório Municipal de Gaia. Dois dias depois, e no extinto Pavilhão de Exposições de Gaia, foi apresentada uma exposição retrospectiva de todos os trabalhos apresentados pelo TEP, no Porto.

A partir de Setembro de 1999, o TEP passou a utilizar o Auditório Municipal de Gaia, como local de apresentação dos espectáculos, sendo o mesmo considerado sede artística do TEP, através do novo Protocolo assinado em 28 de Junho de 2003. A sede social e administrativa ficou instalada, a partir de 9 de Março de 2000, em edifício recuperado e disponibilizado pela Câmara Municipal, onde tinha estado instalada anteriormente a Junta de Freguesia de Mafamude.

Depois, e num curto balanço, poderemos destacar que nestes nove anos de sedeação doTEP em Vila Nova de Gaia, estreámos 33 novos espectáculos, efectuámos treze reposições, realizámos as I, II e III OFICINAS DE TEATRO -Acções de Formação, com a participação de 280 alunos das colectividades amadoras de Gaia e professores do ensino secundário gaiense, dez exposições sobre a temática teatral, apoio diverso e directo a colectividades e escolas e debates sobre a cultura teatral. Relativamente aos espectáculos estreados e até Abril de 2008, o TEP realizou 1286 representações a que assistiram 256.241 espectadores, numa média de 199 por sessão. Isto, num País onde a maioria das companhias profissionais atingem médias entre 30 e 60!... Importa salientar que, se retirássemos as excursões organizadas de escolas que assistiram aos espectáculos, a média seria de 119 por representação.

Refiro, ainda, que às representações especiais para escolas, primeiro no A.M.G. e. depois, no Auditório do Centro Cultural e Social do Olival, gentilmente cedido pela Junta de Freguesia do Olival, a quem estamos permanente gratos, assistiram alunos e professores oriundos de 149 concelhos do Norte, Centro e Sul do País. E, tudo isto, se processa com fracos recursos de promoção e com reduzida difusão na comunicação social de dimensão nacional. Pela nossa parte, pensamos estar a cumprir com os objectivos que nos propusemos atingir. Para que isto esteja a acontecer muito tem contribuído o director artístico do TEP, Norberto Barroca, incansável na execução do projecto e na qualidade do seu trabalho, o director plástico, Mário Dias Garcia, freneticamente firme na criatividade e o elenco de actores, técnicos, administrativos e produção, que nos têm acompanhado, apesar dos baixos salários que praticamos e do muito que é exigido a todos, e que têm respondido com qualidade e eficácia. Destaque particular para a sintonia permanente conseguida com a equipa do Auditório Municipal de Gaia, do seu director, Dr. Manuel Filipe, a todos os colaboradores, que têm sido incansáveis no apoio à obra que estamos a executar.

Nada disto seria possível sem a população gaiense, e muito especialmente sem as suas colectividades escolas, bem como as instituições mais representativas. O seu apoio, consubstanciado, sobretudo, na presença nos espectáculos e actos de difusão da cultura teatral tem sido notável. Com elas, temo-nos sentido mais fortes.

Mas, nada estaríamos a fazer sem o Município de Vila Nova de Gaia. Embora, com pequenos apoios de financiamento do Ministério da Cultura, temos consciência de que se a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o seu Presidente e o executivo autárquico nos retirassem o apoio que nos têm vindo a dar, o TEP ver-se-ia na contingência de paralisar toda a actividade. Mas, felizmente, sabemo-lo e estamos agradecidos, a visão de Luís Filipe Menezes e da vereação a que preside, é de aposta total na defesa do património histórico que representa o TEP e de apoio ao seu presente e ao seu futuro. A renovação do Protocolo, assinado em 2003, é a garantia de um envolvimento cada vez maior da Câmara nestes objectivos - as declarações de Luís Filipe Menezes, tão em contraste com outras vozes de políticos menores, mas com algum poder, ainda reforçam a confiança que temos em que vamos encetar novas etapas, com uma segurança de impulsos ainda mais dinâmica.

Ultrapassadas as comemorações das Bodas de Ouro de representações de teatro profissional em Portugal (2003), em que recebemos do Município de Vila Nova de Gaia, a Medalha de Mérito Cultural e Cientifico – Grau Ouro, e, embora tardiamente, uma reparação de uma injustiça do passado, a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, da Câmara Municipal do Porto, aguardamos a prenda mais emblemática – a criação do Museu de Teatro António Pedro, em Vila Nova de Gaia, onde, finalmente, o nosso património aliado a centenas de doações de particulares, ligadas à nossa história ou ao nosso primeiro director artístico, António Pedro, possam ser mostradas ao público de uma forma exemplar e com um serviço educativo que mostre aos estudantes a revolução estética operada no Teatro Português, no século XX, pelo Teatro Experimental do Porto. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e empresa municipal Gaianima, com o apoio do Ministério da Cultura, serão indispensáveis para a concretização do Museu, já previsto no Protocolo com o Município de Vila Nova de Gaia, de 1999, e o CCT/TEP tem, já em preparação o plano de garantia da instalação e manutenção deste Museu. O CCT/TEP tem tido, nos últimos nove anos, como principal cúmplice da acção, o Município de Vila Nova de Gaia, em moldes privilegiados, sendo a entidade, ao lado da Fundação Calouste Gulbenkian, nos vinte e cinco primeiros anos da nossa existência, que mais demonstrou pela prática um apoio inequívoco e à qual estamos para sempre gratos. Mas, pela nossa parte é importante salientar que temos vindo a reforçar com verbas próprias, sobretudo asseguradas pela bilheteira, um capital de desenvolvimento indispensável. Estas verbas, que, em 1999, eram apenas residuais, corresponderam, em 2007, a 40% do total de receitas obtidas.

Gostaria, para terminar este texto, que já vai longo, mas, contendo dados para o público e para os estudiosos que me parecem fundamentais, fazendo uma curta síntese do nosso historial. O CCT/TEP mudou a forma de se fazer o Teatro em Portugal, mudou a forma de se articular o Teatro com as outras Artes e com as diferentes áreas do pensamento - é isto um facto histórico assumido e reconhecido. Teve momentos altos e outros de menor intensidade, sendo confrontado com todo o tipo de adversidades, incluindo as inimizades e as mais baixas vilanias, mas, também, soube criar amizades ainda mais fortes e duradouras. Criou exemplos, através do modelo perfilhado, mostrando ser possível que uma estrutura associativa de base amadora, possa criar uma estrutura profissional, com continuidade. Sem a associação CCT, o TEP já teria desaparecido há muito. Viu balas apontadas, com a ferocidade expressa nos olhos de quem as disparava, mas, ganhou uma certeza - NÃO NOS MATARAM ... SEMEARAM-NOS.

É com esta certeza que trabalhámos e vamos prolongar-nos no futuro, com todas as renovações que se tornem necessárias.

PELO CONCELHO DE VILA NOVA DE GAIA! PELO PÚBLICO! PELO TEATRO! PELO TEP!
PELO FUTURO!

JÚLIO GAGO - Presidente do CCT/TEP

 

Do mapa “Os Espectáculos do TEP”, retirámos os estreados em Vila Nova de Gaia, aqui de novo apresentados. É de realçar que o penúltimo espectáculo estreado no Porto, “A Grande Viagem”, de Norberto Barroca, foi apresentado no Auditório Municipal de Gaia, entre 22 e 26 de Fevereiro de 1999, aí efectuando 10 representações para escolas, ainda antes da assinatura do protocolo que transferiu a nossa sede para Vila Nova de Gaia.

 

“MEMÓRIA”, DE ARTHUR MILLER

“RESTOS”, DE BERNARDO SANTARENO

O Teatro Experimental do Porto tem em cena, no Auditório Municipal de Gaia, o ciclo “VIAGENS”, constituído pelo 212º espectáculo, “MEMÓRIA”, de Arthur Miller, com encenação de Susana Sá, que engloba duas peças em um acto, “Não Me Lembro de Nada” e “Clara”; e pelo 213º espectáculo, “RESTOS”, de Bernardo Santareno, com encenação de José Dias, entre os dias 25 de Setembro e 19 de Outubro, de quarta-feira a sábado, às 21H15M, e, ao domingo, às 16H00M.

Três peças, dois espectáculos, um só bilhete – que revelam a estreia profissional na encenação de dois actores do elenco regular do Teatro Experimental do Porto nos últimos anos: Susana Sá e José Dias.

Cinquenta e poucos anos depois, o Teatro Experimental do Porto voltou aos dois autores que mais o marcaram na época de António Pedro – Arthur Miller e Bernardo Santareno.

 

Círculo de cultura Teatral

Teatro Experimental do Porto

Apresenta

CICLO VIAGENS

212º Espectáculo

 

MEMÓRIA

de Arthur Miller

 

Tradução, Encenação e Figurinos

SUSANA SÁ

Cenografia

RICARDO PRETO

Desenho de Luz e Sonoplastia

EDUARDO BRANDÃO

"Não me lembro de nada"

 

Personagens e Intérpretes:

Leonora - ALICE VASCONCELOS

Leo - OLIVEIRA ALVES

 

"Clara"

 

Fine - RUI SPRANGER

Kroll - JOSÉ CRUZ

Clara - RAQUEL ROSMANINHO

Director de Cena

SUSANA SÁ

Operador de Luz

JOÃO ABREU

Operador de Som

ZÉZÉ BORGES

Maquinaria

ALBERTO RIBEIRO e MANUEL NEVES

Guarda-Roupa executado por

CÂNDIDA RIBEIRO

Cenário executado por

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

Programa e Cartaz

NORBERTO BARROCA

Desenho Gráfico

JOSÉ CARVALHO

Fotografias

JOSÉ MARTINS

Produtora Executiva

EUGÉNIA CUNHA

Secretariado

ANA SANTOS

Assessor da Direcção

VIDAL VALENTE

Maiores de 12 anos

Estreia: 25 de Setembro de 2008

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

Quando em 2001 estreámos no TEP a peça O Amor do Soldado , de Jorge Amado, nunca imaginei que passados sete anos estaria a dirigir um espectáculo a ser apresentado no palco onde me estreei profissionalmente.

Foi com muita alegria que aceitei o convite de Norberto Barroca, a quem agradeço com muito carinho, a oportunidade e a confiança.

Com esta responsabilidade nas mãos, debrucei-me na escolha de um texto que respeitasse o carácter social do palco, sustentado por personagens próximas de cada um de nós e através das quais o espectador pudesse reagir a um sentimento de humanidade comum e encontrasse as mesmas probabilidades que caracterizam a sua própria existência. Assim surge Arthur Miller e Perigo: Memória! , obra composta por duas peças num acto Não me lembro de nada e Clara , cuja temática comum e central é a amnésia simbólica, o esquecimento como fuga a sentimentos negativos.

Não me lembro de nada é um dos raros exemplos do lado humorístico de Miller. Leonora, uma viúva rica de idade avançada e o grande amigo do seu falecido marido, Leo encontram-se diariamente, sob a sombra da morte, explorando e disputando a lembrança do passado partilhado por ambos. Uma imensidade psíquica separa-os: Leo, é um químico reformado, que ocupa o seu tempo entre pequenos projectos e a leitura de jornais, cordão ao mundo, alimento para a esperança no futuro que recusa, obstinadamente a perder. Tem sobre a condição humana uma visão científica ( “Tudo o que somos é um monte de nitrogénio falante. E fósforo e outros elementos…a dois dólares se descontares a inflação”) enquanto Leonora, para quem a vida parou após a morte do seu marido, sentimental e desiludida com uma sociedade suportada pela brutalidade e mentira, apoia-se na bebida, questionando o valor da (sua) existência, resistindo às memórias, defendendo-se, assim, da dor de não poder voltar ao passado, transmitindo-nos a sua rejeição do mundo pelo que ele é e pelo que lhe falta, envereda por um desejo disciplinado de amnésia, disfarçado em lapsos de alzheimer, convencendo(-se) de que não consegue lembrar-se de nada. Esse alheamento do mundo em repetidas negativas mais não é do que o inconformismo e revolta do ser humano diante da tragédia inevitável da existência -a morte. Presos pelos próprios medos da idade, cercados pela carga emotiva e social do ser velho perante a angustiante possibilidade de amanhã já terem morrido, a labiríntica viagem à memória permite-lhes de forma distinta, uma experiência catártica, através da qual extremizam as suas ânsias e frustrações.

Clara é um texto “negro” que retrata a investigação do assassinato de uma jovem mulher. Albert Kroll, o pai da vítima, após encontrar o cadáver da filha degolado, sofre um bloqueio de memória, não conseguindo lembrar-se do nome do ex-presidiário com quem aquela mantinha uma relação na altura do crime. O fantasma de Clara assombra a sua memória durante o interrogatório sinuoso, enquanto explora o seu passado, admitindo que se pautou por uma ética camuflada de preconceitos e hipocrisias. Ironicamente não é a pressão do interrogatório do racional e perverso detective judeu, Leo Fine, que se rege pela máxima ”Fá-lo aos outros antes que o façam a ti”, que o faz recuperar a memória, mas sim um disco, que lhe devolve a sua voz jovem e forte a cantar Shenandoah, e a memória de uma Clara adorável, guardiã das memórias de guerra - as mortes, as humilhações e os seus actos heróicos ao evitar que os seus soldados negros, alvo de intolerância, fossem linchados. O orgulho que a filha tem por ele restaura-lhe a sua fé. Mais que um interrogatório, Clara é um estudo da consciência católica atormentada de Kroll, julgado como pai ao ter incutido na filha um idealismo assente na premissa “É preciso dar às pessoas o benefício da dúvida” que a tornou vulnerável, precipitando-a para a morte e por ter abandonado os seus altos desígnios juvenis ao trabalhar numa duvidosa empresa de construções. Mais que um pai, kroll representará um Estado negligente para com os seus próprios filhos. Mais que anti-heróis existenciais que gastam a vida em lamentosas meditações sobre o passado, Leo, Leonora, Kroll, Fine e Clara representam as falhas no fabrico do sonho americano e dão voz a uma geração americana que olha para trás, para os cataclismos da história questionando se algum bem daí adveio. Mais frutuoso que culpar um e vitimizar o outro será, para Miller, avivar a ideia da responsabilidade de cada um perante todos e de todos perante cada um, logo em Perigo: Memória! não existem bons e maus e a verdade reside num conflito de verdades: determinação/transigência, liberdade/necessidade, confiança/desconfiança, compaixão/severidade, ilusão/realidade, …assim como em cada um de nós. Partindo da ideia que a revisitação ao passado terá como imagem metafórica o comboio e transportando esta ambivalência humana para a cenografia, através da coexistência de dois universos: o material e o simbólico, o passado e o presente, o secreto e o exposto, a vida e a morte ligados por uma estrutura – o túnel – local de armazenação e reinvenção do vivido, símbolo dessa ponte entre o exterior e o interior, entre o privado e o público, sendo o banco de comboio e os trilhos cruzados o reflexo do repetido e incontornável caminho para a morte. Ressalvo a criatividade e profissionalismo de Ricardo Preto, responsável pela cenografia, assim como o trabalho de Eduardo Brandão, na sonoplastia e luminotécnica.

Quero agradecer ao Júlio Gago o voto de confiança e também o apoio do Mário Garcia, da mestra Joaquina Garcia, do senhor Valente, a colaboração de Cândida Ribeiro, Eugénia Cunha, Ana Santos, Tito Machado, Fernando Monteiro e Marta Veiga, Mário Sobreira e a todos os funcionários do Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia. Um abraço especial para os meus colegas actores. Demos o nosso melhor, espero que gostem.

SUSANA SÁ - Encenadora

 

Círculo de cultura Teatral

Teatro Experimental do Porto

Apresenta

CICLO VIAGENS

213º Espectáculo

 

RESTOS

de Bernardo Santareno

 

Encenação e Cenário

JOSÉ DIAS

Figurinos

MÁRIO DIAS GARCIA

Desenho de Luz e Sonoplastia

EDUARDO BRANDÃO

Personagens e Intérpretes:

Misú - MANÉ CARVALHO

Tó Mané - DANIEL PINTO

Director de Cena

JOSÉ DIAS

Operador de Luz

JOÃO ABREU

Operador de Som

ZÉZÉ BORGES

Efeitos Especiais

JOÃO ABREU

Maquinaria

ALBERTO RIBEIRO e MANUEL NEVES

Guarda-Roupa executado por

CÂNDIDA RIBEIRO

Cenário executado por

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

Programa e Cartaz

NORBERTO BARROCA

Desenho Gráfico

JOSÉ CARVALHO

Fotografias

JOSÉ MARTINS

Produtora Executiva

EUGÉNIA CUNHA

Secretariado

ANA SANTOS

Assessor da Direcção

VIDAL VALENTE

 

Maiores de 16 anos

Estreia: 25 de Setembro de 2008

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

BERNARDO SANTARENO, apresenta-nos em Os Restos , um casal de jovens escondidos no seu refúgio sagrado, desiludidos com a grande revolução, com aquilo que poderia ter sido mas não foi, afastados dos partidos políticos, dos movimentos sindicais, da informação e da contra-informação.

Tó Mané e Misu, as duas personagens da peça, representam “a existência fruste e associal daqueles a quem a revolução não chegou, ou que até ela não chegaram, os marginalizados por uma sociedade classista que os engendra e rejeita”¹, reclamando o impossível: atingir o conhecimento profundo e total do ser humano. Tentam começar onde os outros pararam, não por falta de coragem, não por falta de curiosidade, não porque a revolução já estivesse concluída, mas porque uma nova ordem política, social e moral apenas substituíra uma outra ordem anterior. As conquistas de Abril esfumavam-se. As reformas “reformavam-se”. Alguns continuaram a lutar, outros desistiram. Tó Mané e Misu, cansados da sociedade, desistem. Decidem-se por uma viagem sensorial sem regresso. O flagelo da droga, bem presente nos nossos dias, abatera-se sobre eles.

Restos , pretende falar sobre todos os flagelos. A frustração dos sonhos, a incapacidade de enfrentar a realidade sem que com ela nos revoltemos ou nela nos refugiemos, o mal menor, as minorias, a incapacidade de escolher, as consequências da decisão, as dificuldades incompreendidas, as falsas promessas, o medo, a opressão, o conformismo.

Com este espectáculo, pretende-se, através do teatro, da dança/movimento, do circo, dos efeitos visuais e sonoros, retratar todas essas minorias que a sociedade tem vindo, através dos tempos, a marginalizar e até a ignorar. A partir destas artes, exaltam-se, ainda, todas as lutas perdidas e encontradas num interior que abraça a expectativa de partir.

Como espaço cénico, um quarto fechado pela escuridão e influenciado, ao mesmo tempo, pelo mundo exterior e em que a acção se desenvolve em diferentes planos (exterior, quarto, chão e cama). Cada um deles, para as personagens, representa, respectivamente, o medo, o santuário, a arena, a viagem.

Tó Mané e Misu, degladiam-se, provocam-se, protegem-se, acusam-se, odeiam-se e amam-se. Com uma componente física muito forte, onde o gesto e o corpo lutam e/ou acompanham a palavra, a representação adquire uma dimensão trágica. Rodeados por um ambiente frio, chuvoso e tumultuoso, vivem o drama que afecta muitos dos jovens de hoje.

Desta forma, este espectáculo destina-se a todos os que se esqueceram, a todos os que ignoram, aos que ainda se lembram e aos que não se querem esquecer. A todos, porque a memória de um povo é a cultura desse povo.

JOSÉ DIAS - Encenador

¹ REBELO, Luís Francisco, 1984, «A literatura teatral», in Colóquio de Letras, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 

Terminou a carreira em 2008-12-15

“PLUFT, O FANTASMINHA”, DE MARIA CLARA MACHADO

“Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado, com encenação de Norberto Barroca, 214º espectáculo do TEP, esteve em cena no Auditório Municipal de Gaia, entre 15 de Novembro, e 13 de Dezembro de 2008. Espectáculo de Teatro para a Infância, foi promovido junto do 1º ciclo do Ensino Básico e Jardins de Infância, das regiões Norte e Centro, através da carta que reproduzimos a seguir.

Teve uma representação posterior, no dia 15 de Dezembro de 2008, pelas 14H30, no Auditório do Centro Cultural e Social de Olival, em Vila Nova de Gaia.

Às escolas do 1º ciclo do Ensino Básico e Jardins de Infância

Assunto: “PLUFT, O FANTASMINHA”, de Maria Clara Machado 2008-10-04

Teatro para a Infância pelo TEP

Maria Clara Machado (1921-2001) é uma das mais importantes dramaturgas brasileiras do século XX, autora de verdadeiros êxitos do Teatro para a Infância, em diversos Países do Mundo. Divulgada em Portugal, a partir dos anos cinquenta do século passado, foi levada à cena inúmeras vezes, inclusive pelo Teatro Experimental do Porto, que dela apresentou, “ Pluft, o Fantasminha” (1964), que agora regressa numa nova encenação, “O Cavalinho Azul” (1966) e “A Bruxinha que era Boa” (2004). “Pluft, o Fantasminha ” (1955) foi o seu primeiro grande êxito de público no Brasil e a peça que a própria autora considerou como a mais completa das suas obras para a infância.

“Pluft, o Fantasminha” é uma peça infantil que faz a apologia da amizade. Conta a história de uma menina (Maribel) raptada pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, conhece uma família de fantasmas e faz amizade com Pluft, um fantasminha que tem medo de gente. Acaba por ser salva com a ajuda de três amigos marinheiros. É uma peça cheia de humor, poesia, música e diversas situações que têm feito o encanto de crianças de muitos Países e diferentes gerações.

O Teatro Experimental do Porto, com o principal patrocínio do Município de Vila Nova de Gaia e empresa municipal Gaianima, vai apresentar “Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado, com encenação de Norberto Barroca e música original de Paulino Garcia, entre 13 de Novembro e 13 de Dezembro de 2008, no Auditório Municipal de Gaia.

A carreira do espectáculo decorrerá, às segundas, quartas, quintas e sextas-feiras, em duas representações diárias, às 10H30M e às 14H30M, e aos sábados e feriados, às 16H00M.

 

O Teatro Experimental do Porto, responsável pela criação e produção do espectáculo, assegura uma representação exemplar e que, certamente, será aplaudida por professores e alunos.

Aguardamos as vossas marcações com a urgência indispensável. O preço dos bilhetes para cada representação (um professor por turma terá acesso gratuito, pagando os restantes em função do número de alunos envolvidos), será o seguinte:

Preço do Bilhete – 4,00 Euros

As escolas de Vila Nova de Gaia pagarão o preço reduzido de 3,00 Euros.

Os contactos para marcações deverão ser feitos para o Auditório Municipal de Gaia, através do número de telefone – 22 377 18 20, faxe – 22 377 18 29, ou correio electrónico am.gaia@gaianima.pt . Para informações gerais, ou ligadas à criação ou produção do espectáculo, os contactos deverão ser feitos para o CCT-Teatro Experimental do Porto, através do telefone 22 372 23 40, telemóvel 91 728 66 28, faxe – 22 372 23 44, ou correio electrónico cct-tep@mail.telepac.pt . Consulte o sítio do CCT-TEP em www.cct-tep.com.

Agradecemos que atempadamente façam saber o vosso interesse, o horário pretendido e o número de pessoas envolvidas (professores e alunos).

Na expectativa de uma resposta, com a maior brevidade, aproveitamos para expressar a nossa maior estima e consideração.

Muito Atentamente

Pel'A Direcção do CCT/TEP

O Presidente

Júlio de Oliveira Gago

 

“Pluft, o Fantasminha” teve encenação e cenografia de Norberto Barroca, figurinos e co-autoria da cenografia de Mário Dias Garcia, música de Paulino Garcia, coreografia de Ruben Marks e desenho de luz e sonoplastia de Eduardo Brandão. Foram intérpretes António Alves Vieira, Fábio Alves, Hélio Sequeira, José Cruz, José Dias, Matilde Nicolau, Olga Dias e Silvano Magalhães. Apresentou-se em 21 representações (20 no Auditório Municipal de Gaia e 1 no Auditório do Centro Cultural e Social de Olival), a que assistiram 3.933 espectadores, numa média de 187 por sessão.

 

MOMENTOS DO TEP

>> DADOS HISTÓRICOS <<

A História do CCT/TEP tem sido feita de momentos altos e baixos, de afirmações e recuos, de grandiosidade e pobreza, mas sempre, sofrendo a contestação de alguém. E, também sempre, tem sido feita de grandes e, por vezes, graves dificuldades financeiras, a que só o engenho deu os sucessivos volte-faces. A nossa companhia, o Teatro Experimental do Porto, nasceu, cresceu, formou-se, teve filhos (várias outras nasceram de cá ou criaram uma nova estrutura, seguindo o nosso modelo), amadureceu, lutou contra engulhos bem difíceis de tornear, sentiu-se moribunda, quase ressuscitou, sentiu o golpe semi-mortal e qual fénix renasceu uma vez mais. E, para estancar o sangue perdido no tiro que parecia certeiro, quando apontado ao coração, em finais de 1998, sentiu o apoio para a recuperação da dor e do fastio pela morte, de uma entidade que se tornou indispensável nos últimos nove anos, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o seu Presidente e os seus quadros e trabalhadores. E da população gaiense, quer do cidadão anónimo que nos passou a honrar com o sua presença nos diversos actos teatrais que temos vindo a mostrar ao público, quer deste povo colectivamente organizado nas suas diferentes instituições, com peso particularmente relevante para as colectividades e escolas.

Chegámos aos cinquenta e cinco anos de espectáculos, em 18 de Junho de 2008, mas, as origens do CCT/ TEP remontam a uma noite fria e chuvosa de Novembro de 1950 em que, por convocatória oral de Manuel Breda Simões, um grupo de cidadãos interessados na teoria e prática teatral se reuniu nas instalações do Instituto Francês, no Porto, então sedeado na Rua Cândido dos Reis. Infelizmente para a História, não foi possível, até hoje, esclarecer a data em que esta reunião decorreu. A convocatória oral, a falta de registo da calendarização da reunião pela entidade que cedeu a sala e a memória dos seus protagonistas não a ter retido, leva-nos a esta lacuna, com a única confirmação de que se realizou em Novembro de 1950, algures pelo meio do mês!...

O MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil teve importância determinante nas discussões democráticas, que haviam tido uma outra orientação no pós-guerra de 1939-45, e levaram a juventude a pôr tudo em causa, ousando desafiar o regime, em defesa dos valores da cidadania e da cultura. Um certo Porto livre, nas ideias que não nas liberdades, ousou sonhar a Utopia, uma outra para além da de Thomas More. A cidade efervescia de discussões literárias, artísticas, científicas e de ideias, que contextualizavam o que se passava na Europa e no Mundo, com os seus novos alinhamentos e os seus reflexos na Literatura, nas Artes Plásticas, na Música, no Teatro, no Cinema, nas diferentes áreas científicas... na Política. A figuras já reconhecidas na opinião pública como Abel Salazar, Rui Luís Gomes e outros, juntavam-se, jovens com certezas de futuro, que iriam provocar um salto qualitativo a curto-prazo. E, sobretudo, eram jovens que rapidamente passavam à acção, torneando os obstáculos que iam surgindo, e, criando novas instituições indispensáveis como o Clube Português de Cinematografia (Cine-Clube do Porto), a SEN (Sociedade Editora Norte), a Livraria Divulgação, revistas, jornais literários (a maioria de curta duração, por imposições ditatoriais) ou dando uma nova dinâmica a estruturas já existentes (exemplo, o Círculo de Cultura Musical).

O Teatro que se fazia estava reduzido a um D. Maria II, em Lisboa, anquilosado e decadente, alinhado com o regime, a um teatro comercial que, de certa forma, era o único que se afirmava, a um teatro de amadores, profundamente ultrapassado, sem qualquer réstea de qualidade, controlado maioritariamente por caciques locais ligados à situação. As poucas tentativas sérias de ousar fazer um novo Teatro tinham sido operadas em Lisboa (exemplos, do Teatro-Estúdio do Salitre, Companheiros do Páteo das Comédias, Grupo da Casa da Comédia, dirigido por Fernando Amado (1946), experiências teatrais de Manuela Porto e Roberto de Araújo Pereira) e Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, sob a direcção de Paulo Quintela. Apenas este último, viria a ter continuidade.

Manuel Breda Simões era, em Novembro de 1950, professor na Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, facto que terá tido importância na presença maioritária de professores deste estabelecimento de ensino, na primeira reunião, que levou à criação do CCT/TEP, e onde o próprio nome (por proposta de M.B.S.) foi aprovado.

João Arnaldo Maia

Estiveram presentes, além do autor da convocatória, Edgar Gonçalves Carneiro, José Lopes Craveiro da Costa, Regina Borges, Natália Piló Bispo, Ilídio Correia de Sousa, Humberto Mergulhão, Joaquim Azevedo Moreira, Manuel Luís Nogueira, Amílcar Nascimento Paulo, Eduardo Valente da Fonseca, Orlando Couto (actual sócio n° 1), Arlindo de Sousa Leite, Óscar Borges e o jornalista João Arnaldo Maia, que compareceu pelo jornal "O Comércio do Porto", mas, de imediato, integrou uma das comissões criadas, tendo vindo a assumir uma posição cimeira, não só na legalização da associação, como em diversos momentos essenciais da vida do CCT/TEP. Angariar novos sócios para o embrião da associação, resolução de problemas ligados à fundação e elaboração dos Estatutos, foram os principais trabalhos destes pioneiros, a que viriam a juntar-se muitos outros, que prepararam o "antes de António Pedro".

Os Estatutos foram aprovados em 1 de Fevereiro de 1951, numa Assembleia Geral, realizada na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, presidida por Edgar Carneiro, secretariado por João Arnaldo Maia e Amílcar Nascimento Paulo. Estes Estatutos só seriam promulgados, por alvará do Governo Civil do Porto, em 21 de Outubro de 1952.

Alexandre Babo

Neste período intermédio, e enquanto os fundadores procuravam resolver os problemas levantados pelo regime para a legalização, foi mostrada publicamente a nova Associação, através de um boletim copiografado, promovida uma conferência do Prof. Hernâni Silva de "Introdução ao Conhecimento do Teatro Antigo" e iniciados ensaios de várias peças, sob a orientação do jornalista Athayde Perry, e, também, de Egito Gonçalves, Correia Alves e João Arnaldo Maia, sem que nenhuma progredisse. E, foram surgindo a Dalila Rocha, a Amélia Varejão, o Baptista Fernandes, Júlia Babo, Alexandre Babo, Abílio Cordeiro, o Correia Alves e outros. A Associação avançava, mas, faltava conhecimento de palco e da sua prática aos jovens pioneiros do CCT/TEP. Até que um dia, o Eugénio de Andrade, convidado para integrar o Conselho de Leitura, mostrando indisponibilidade para este cargo, se prontificou a mediar um primeiro contacto com o seu amigo António Pedro, a residir em Moledo do Minho, após as goradas tentativas teatrais lisboetas, nos anos precedentes. E, foi o grande Poeta que acompanhou Alexandre Babo, o primeiro Presidente da Direcção do CCT/TEP, eleito na segunda quinzena de Dezembro de 1952, a Moledo, na diligência feita em Fevereiro de 1953. António Pedro hesitou, e veio relutantemente a uma primeira reunião com os seus futuros alunos, mas, como o próprio afirmaria mais tarde, o entusiasmo dos jovens despertou-o para a aventura.

António Pedro

A primeira aula do Mestre foi realizada em 7 de Março de 1953, no Clube Fenianos Portuenses, que viria a apadrinhar, enquanto suporte legal, a estreia do primeiro espectáculo do TEP. António Pedro apenas pediu duas coisas aos seus alunos - vontade e capacidade de trabalho e que trouxessem fatos-macacos para os ensaios, pois, para os exercícios e para ajudarem nas disciplinas técnicas, tinham necessidade de se sujarem. E, seriam, por falta de verba para comprar outra indumentária, os trajes a utilizar em "A GOTA DE MEL", de Léon Chancerel, uma das três peças do primeiro espectáculo do TEP. A este propósito, é interessante contar uma anedota histórica, que tenho referenciado diversas vezes. No período entre a primeira aula de António Pedro e a estreia do primeiro espectáculo, faleceu na União Soviética, José Estaline, e como toda a Cultura era vista pelo Estado Novo como potencialmente subversiva e "comunista", logo correu o boato de que os fatos-macacos escolhidos serviam para prestar homenagem ao "Pai dos Povos" e ao internacionalismo proletário do Partido Comunista.

João Guedes

O boato dos "ultra" do regime não passava de uma atoarda, como muitas outras, e a opção do traje ficara, somente, a dever-se à falta de recursos económicos e à aceitação das vestimentas para o "coral pela paz", que era "A GOTA DE MEL". Para as aulas apareceram não só alguns dos nomes já citados, como outros, em que se destacava um matosinhense de 33 anos, desportista multifacetado, mas sem experiência de palco, e que mais tarde viria a ser uma das mais importantes figuras do TEP e do Teatro Português, no século XX - João Guedes.

Durante as lições de Teatro de António Pedro, e após terem sido submetidos à Censura diversos textos, sendo eliminadas as peças reprovadas, o primeiro director artístico do TEP, optou por levar à cena um espectáculo, constituído por três peças em um acto, que demonstrassem diferentes opções teatrais, o que significava, igualmente, uma mais profunda aprendizagem para os seus pupilos e uma melhor amostragem para o público. Egito Gonçalves, poeta e, então, aprendiz de actor, adaptou "A NAU CATRINETA", do cancioneiro tradicional, que com "A GOTA DE MEL" e "UM PEDIDO DE CASAMENTO", de Anton Tchekov, constituíram o primeiro espectáculo.

E, finalmente, no DIA 18 DE JUNHO DE 1953, pelas 21 h30, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, com o patrocínio do Clube Fenianos Portuenses, o Teatro Experimental do Porto estreou o seu primeiro espectáculo, numa sala com lotação praticamente esgotada. O acontecimento tinha despertado uma grande curiosidade entre a população culta da cidade do Porto e concelhos limítrofes, bem como nos meios da Oposição. Na obra "O TEP E O TEATRO EM PORTUGAL - Histórias e Imagens", Carlos Porto salientou:"... quem a ele assistiu, embora tivesse aderido sem reservas, embora o tivesse aplaudido com entusiasmo, não se terá apercebido, é quase certo, do facto de se tratar de um acontecimento histórico, como foi o caso. Na realidade, o Teatro em Portugal não voltou a ser o mesmo, depois desta estreia. "Uma das personalidades que assistiu a este acto, foi o então jovem dramaturgo e advogado, Luiz Francisco Rebello, ocasionalmente de passagem pelo Porto, e que viria a escrever no suplemento literário do Jornal de Notícias, em 28-06-1953, um artigo intitulado “Apresentação do Teatro Experimental do Porto" (ver texto inserido neste site).

De imediato e face ao êxito do espectáculo inaugural, os então amadores do TEP prepararam uma digressão que se prolongou até Agosto de 1953, apresentando-se em Aveiro, Viana do Castelo, Guimarães (ao ar livre), no selecto Clube de Leça, em Leça da Palmeira, no Grupo dos Modestos, no Porto, e, finalmente, de novo no Teatro Sá da Bandeira, desta vez com a lotação totalmente esgotada. Os aplausos surgiram de todos os quadrantes. O leque dos associados era cada vez maior. António Pedro, entusiasmado, começou a preparar "uma glosa nova da tragédia de Sófocles, "ANTÍGONA", adaptada ao perfil dramático, intuído por António Pedro, nos actores de que dispunha. E, sobretudo, procurava-se um espaço para concretizar o sonho de um Teatro próprio. Até que alguém descobriu um espaço sem utilização, um armazém, ligado à lavandaria da Camisaria Confiança, nas traseiras desta casa comercial, com entrada pela Rua Santa Catarina, e que ficava na então Travessa de Passos Manuel (hoje, Rua do Ateneu Comercial do Porto), em frente ao Restaurante Abadia (ver texto de João Arnaldo Maia). Aí, e lembrando o exemplo visto por um dos fundadores, na Holanda, sob o conselho da experiência teatral europeia de António Pedro, o arquitecto Luís Praça começou a desenhar o primeiro Teatro de Algibeira, construído na Península Ibérica. Um Teatro minúsculo, com uma plateia e balcão que totalizavam 134 lugares (100 na versão inicial), mas cujo palco e áreas de servidão tinham tudo o que era indispensável para o seu regular funcionamento. Este Teatro de Algibeira, inaugurado em 8 de Maio de 1956, com o espectáculo nº 6, "MACBETH", de William Shakespeare, com esta designação, viria a mudar o seu nome para Teatro de Bolso, em Junho de 1960 (as gentes do Norte consideraram que assim se fazia mais justiça à forma de falar da região) e, a partir de Julho de 1971, quando o primeiro director artístico já tinha falecido, Teatro António Pedro. Num acto de mero economicismo e cedência aos interesses de uma entidade bancária, viria a ser alienado em 1980, pela Direcção presidida por Manuel Alves Rigor, sem recurso a Assembleia Geral e o quase desinteresse da cidade do Porto!... E do País!...Mas, voltando ao nosso velho Teatro, o Teatro que viu surgir no seu seio a única revolução estética operada no Teatro Português, no século XX, sob a direcção de António Pedro. Aliás, vou deixar de mencionar o itinerário de peças (estão inseridas cronologicamente neste site), e salientar, a partir daqui, apenas os principais momentos do TEP, que se reflectiram sobre toda a actividade da associação e da companhia profissional. O projecto de Luís Praça foi aprovado em 1955, começando de imediato as obras, com destaque para a participação dos associados do CCT/TEP, quer na obtenção dos materiais (muitos cedidos gratuitamente por industriais e comerciantes, que se fizeram sócios), quer, e sobretudo, na mão-de-obra, executada maioritariamente pelo elenco e associados, onde faziam de pedreiros, trolhas, carpinteiros, serralheiros... enfim. E, onde se incluíram figuras, mais tarde bem conhecidas da Cultura Portuguesa, permitindo-me realçar Augusto Gomes, quiçá a segunda figura dos primeiros anos do TEP.

Augusto Gomes

Augusto Gomes era já um pintor conceituado, e, na sua colaboração com o TEP, viria a ser responsável por várias encenações, cenografias, figurinos, adereços, esculturas, tendo, inclusive, sido director-artístico adjunto de António Pedro. A cumplicidade de duas figuras provenientes de duas opções estéticas antagónicas - o neo-realismo (A.G) e o surrealismo (A.P.). Mas, não foi só Augusto Gomes, na área das Artes Plásticas, quem se aproximou do director artístico do TEP, como facilmente se constatava nos distintos colaboradores desta instituição. Logo em 18 de Fevereiro de 1954, paralelamente à estreia de "ANTÍGONA", no Teatro S. João, foi realizada uma exposição-venda de quadros e esculturas de artistas plásticos, sócios do CCT/TEP e de apoio à construção do Teatro, que incluía Abel Salazar, Acácio Lino, António Cruz, Barata Feio, Carlos Carneiro, Dórdio Gomes, Fernando Lanhas, Guilherme Camarinha, Isolina Vaz, Jaime Isidoro, Júlio Resende, Amândio Silva e outros, entre os quais António Pedro e Augusto Gomes.

António Pedro, preocupado com a edificação do seu projecto artístico, não deixou nunca de estar atento às áreas mais directamente ligadas à gestão do CCT/TEP, prestando um valioso contributo, inclusive em situações como o desbloqueamento da aprovação do projecto do Teatro e a obtenção do primeiro subsídio do Governo, casos em que aproveitou os seus conhecimentos junto da Situação.

Foi, com efeito, através do bom relacionamento que mantinha com Eduardo Brasão, Filho, Secretário Nacional da Informação, e filho do actor do mesmo nome, que o TEP viu surgir-lhe o primeiro subsídio do SNI, de cinquenta mil escudos, para montagem de peças e aquisição de material, em 1955. Entrementes, havia acontecido a primeira deslocação do TEP a Lisboa, com a "MORTE DE UM CAIXEIRO VIAJANTE", de Arthur Miller, por muitos considerada a obra mais emblemática da nossa companhia, e que aí foi representada no Teatro Apolo (já desaparecido), em 18 e 19 de Dezembro de 1954, com êxito estrondoso, que obrigou a prolongamento de representações.

Fernando Aroso

Com "MACBETH" e a inauguração do Teatro de Algibeira, surge no historial do TEP, um artista de rara qualidade, que acompanhou a actividade da companhia até ao início de 1964 - Fernando Aroso, o mestre fotógrafo que melhor captou as imagens do Teatro, fazendo da fotografia de cena uma arte paralela.

Carlos Wallenstein

Em 1957, a Fundação Calouste Gulbenkian atribuiu o primeiro subsídio importante ao CCT/TEP - cem mil escudos, vindo a revelar-se ao longo de quase três décadas, o principal patrocinador da nossa actividade. Já antes desta data, e, por diversas vezes, havia apoiado a nossa acção, dando razão a todos os que a consideraram, no regime deposto em 25 de Abril, como o verdadeiro "Ministério da Cultura", do nosso País. Em todo este apoio, teve papel incontornável o actor Carlos Wallenstein, quadro superior da Fundação, e figura que, sem participar na nossa actividade artística, teve uma acção determinante no evoluir do CCT/TEP. Para a sua memória, a nossa mais sincera homenagem.

No mesmo ano, e após carta ao Ministro das Corporações e Previdência Social (ver texto neste site), o Teatro Experimental do Porto obteve o estatuto de companhia profissional, em Outubro, tendo o seu elenco adquirido as respectivas carteiras profissionais. O CCT/TEP tinha, nessa data, 3.500 associados (viria a aumentar, um ano depois, numa época em que o Futebol Clube do Porto tinha 6.000!). O TEP desdobrava-se numa actividade cada vez mais intensa: as peças eram estreadas consecutivamente (10 em 1958), os colóquios e conferências eram uma constante, a Escola de Teatro era reactivada para novos alunos, sendo, inclusive, formado o "Grupo B", onde apareceram actores como José Brás e Madalena Braga. António Pedro conseguia fazer do TEP moda, sobrepondo a sua actividade à das demais estruturas culturais da cidade do Porto, e não só a estas. António Pedro, artista de múltiplas facetas, sabia distribuir as tarefas exemplarmente, e estava cada vez mais absorvido pelo trabalho de encenação e pela difusão das suas ideias de renovação para o Teatro Português (em 1958, concorreu, inclusive, à exploração do Teatro D. Maria II).

Deniz Jacinto

A Escola de Teatro era uma das suas preocupações centrais, a que não podia dar o seu apoio total; nem Augusto Gomes, entretanto nomeado professor contratado da Escola Superior de Belas Artes do Porto, o poderia fazer a tempo inteiro. Foi então convidado para dirigir a Escola de Teatro do TEP, Deniz Jacinto, matemático e teatrólogo reconhecido, fundador do TEUC e um dos grandes investigadores e pedagogos do Teatro no Mundo, recentemente libertado de Peniche, onde estivera preso pela Pide. O encanto das suas aulas, prolongadas por quase duas décadas, com algumas interrupções, formou inúmeras gerações de actores e amantes do Teatro. Paralelamente, da Escola artística de Augusto Gomes começaram a surgir, ainda alunos, novos artistas plásticos de gabarito, que viriam a marcar, também, a actividade teatral e o TEP, como José Rodrigues. Jorge Pinheiro, Ângelo de Sousa, Armando Alves, António Quadros, Justino Alves..., como, em anos anteriores, o haviam também feito Eduardo Luís, Fernando Fonseca, Fernando Azevedo, Júlio Resende...

A forte afluência do público aos espectáculos do TEP, dava a entender que o Teatro de Algibeira era pequeno para o projecto artístico. A descoberta de um novo grande dramaturgo português, Bernardo Santareno e da peça "A PROMESSA", entusiasmou António Pedro, que sugeriu o regresso ao Teatro Sá da Bandeira, onde foram estreados, também, alguns dos espectáculos seguintes. Entretanto, a afluência em massa dos espectadores, era contra balançada pela saída, às dezenas, de associados ligados a sectores conservadores do regime (ver exemplo de carta de demissão, neste site). A intervenção de um pároco, na Rádio Renascença, lançara um repto aos católicos, de boicote ao TEP e a uma "peça blasfema". Mas, o teste feito por António Pedro, junto dos trabalhadores da EFACEC, que aderiram em massa, levou a que a peça se transformasse num dos maiores êxitos do TEP. O Sá da Bandeira tinha custos altos, e pertencia à empresa Rocha Brito & Vigoço, Lda. - era necessário um teatro maior do que o da Travessa de Passos Manuel. Em 1958, responsáveis da Câmara do Porto anunciaram mesmo a possibilidade da transformação da remise dos eléctricos na Rotunda da Boavista, no futuro Teatro do TEP (onde hoje está a Casa da Música). Como o projecto não teve "pernas para andar", foi alugado, pouco depois, o Teatro Nun'Álvares, com cerca de 700 lugares, na Rua Guerra Junqueiro, onde o TEP estreou a maioria dos seus espectáculos entre 1959 e 1960, voltando depois ao "velho" Teatro. A razão principal, numa época em que a maioria dos espectadores se deslocava em transportes públicos, era a não existência de qualquer centralidade para esta zona.

António Pedro permaneceu no TEP até 1961, estreando o seu último espectáculo a 10 de Fevereiro, e saindo num processo extremamente controverso, nunca totalmente esclarecido, mas que, quiçá, poderá ser sintetizado em dois problemas principais - razões económicas, com conflito de tutelas, por um lado, e conflito geracional com aqueles que ele próprio ajudara a formar, por outro. E, não me refiro fundamentalmente a actores... Apesar de tudo, a carta em que pediu a demissão é de uma extrema elegância (ver texto neste site).

Torneando a questão estética e artística, por não me parecer ser este o texto certo para o fazer, alguns pontos ainda me parecem ser de salientar, relativos à direcção de António Pedro no TEP - criou dois actores excepcionais, do melhor que o Teatro Português teve - João Guedes e Dalila Rocha. Criou alguns actores muito bons (outros razoáveis), como Vasco de Lima Couto, Baptista Fernandes, Alda Rodrigues, Jayme Valverde, Mário Jacques, Sinde Filipe, Fernanda Gonçalves, José Silva, José Pina, José Brás e Madalena Braga.

 

Dalila rocha

Vasco de Lima Couto

Baptista Fernandes

Mario Jacques

Alda Rodrigues

Soube integrar actores de outras proveniências e de qualidade nos seus elencos, como Cecília Guimarães, Rui Furtado, Alexandre Vieira, Nita Mercedes e outros. Criou um técnico de Teatro excepcional - o mestre criativo das luzes, Fernando Teixeira, e vários técnicos de competência indiscutível, como Jorge Corte Real, Joubert de Carvalho, Rogério Silva, Abílio Cordeiro, Joyce Piedade, Amélia Varejão, Carlos Fraga, Joaquim de Macedo, etc; sabendo integrar outros, oriundos de outras companhias, como Lopes Valente, José Vidal, José Ribeiro, entre tantos.

Jayme Valverde

Fernando Teixeira

Vidal Valente

Criou um dos mais competentes técnicos e exemplo, sem paralelo no Teatro Português, de disciplina profissional e amor ao Teatro e ao TEP, que é Vidal Valente. Preparou futuros encenadores: João Guedes (a quem apadrinhou os dois primeiros trabalhos), Dalila Rocha, Alda Rodrigues, Mário Jacques. Permitiu a um dos seus melhores actores, Baptista Fernandes, utilizar a sua outra vocação, a cenografia. Enfim...

E, teve a primeira cisão do TEP, no período da sua gestão artística, após a conflitualidade criada com Alexandre Babo, João Maia, Fernando Gaspar e João Apolinário, sobretudo ligada a questões de independência, face ao poder, que estes consideraram ter sido posta em causa com a profissionalização, e que levou à criação do Grupo de Teatro Moderno, nos Fenianos. Ao longo das décadas seguintes, vários foram as cisões no TEP, maioritariamente por opções estéticas, mas, também, de outra índole, que deram origem ao aparecimento da grande maioria das novas companhias e grupos profissionais da cidade do Porto.

A saída de António Pedro provocou, nas mentes mais lúcidas, a necessidade de repensar o futuro do TEP, que exigia, face ao prestígio alcançado pelo primeiro director artístico, alguém de "calibre" idêntico ou superior.

O imediatismo foi simples - João Guedes era de todos os discípulos, aquele que demonstrava uma maior valia para a continuidade da obra, e foi ele que assumiu as funções de director artístico.

Mas, pouco depois, João Guedes, voltou a França, para continuar os seus estudos teatrais. Mário Bonito, Dalila Rocha, Alda Rodrigues e Carlos Cabral, criaram os espectáculos seguintes, com breves passagens pela companhia de actores/encenadores de Lisboa, como Paulo Renato, Rogério Paulo, Jacinto Ramos, Ruy de Carvalho, Carlos Avilez, Ernesto de Sousa, com particular destaque para os três últimos, que, contribuíram, como Ruy de Carvalho, com uma boa prestação como director artístico, e Avilez e Ernesto de Sousa, com espectáculos que marcaram a memória do TEP.

Ruy de Carvalho

Carlos Avilez

Ernesto de Sousa

Ruy de Carvalho era já o actor notável, que felizmente ainda reconhecemos presentemente, e que voltou a actuar no TEP, em 2006, em “Morgana”, mas não sentia a vocação de encenar e assumir um projecto artístico próprio (o único espectáculo que dirigiu na sua carreira, fê-lo no TEP. com "Terra Firme", de Miguel Torga). Entretanto, desde a passagem por Portugal, nos anos cinquenta, de várias companhias brasileiras, principalmente as de Maria Della Costa e Cacilda Becker, e por um conhecimento cada vez maior do Teatro Italiano, um nome começou a surgir, logo após a saída de António Pedro, em círculos próximos da Direcção - o de Ruggero Jacobbi, que fundara com Visconti e Vito Pandolfi, a primeira companhia de teatro italiano do Pós-Guerra, tinha sido considerado o grande renovador do Teatro Brasileiro nos anos cinquenta, e era então, após um regresso a Itália, encenador e professor da Escola do Piccolo Teatro de Milão, entidade que, também, ajudara a fundar. Era a personalidade certa para reavivar o TEP dos momentos altos do António Pedro. Os primeiros contactos, ainda informais, foram feitos pouco depois da saída de António Pedro, sendo passados a escrito a partir de Janeiro de 1964, pela Direcção presidida por Orlando Neves. Mas, viria a ser a Direcção seguinte, com a liderança de Paulo Vallada, que conseguiu acertar um plano de acção com Jacobbi, que atraiu um forte apoio da Gulbenkian e do próprio Fundo de Teatro do SNI, ou seja, do Governo de Salazar.

Ruggero Jacobbi

O TEP que passara os últimos anos à míngua de subsídios reduzidos, reencontrava o director artístico certo para uma obra, que iria mais longe do que a encabeçada por António Pedro, assim a entendiam todos e o próprio orçamento engrossado. Jacobbi chegou ao Porto em 26 de Agosto de 1966, oito dias após o funeral de António Pedro!... Constatando que parte das suas sugestões haviam sido reprovadas pela Censura, o encenador italiano decidiu encenar, como primeiro trabalho, "A ESTALAJADEIRA", de Goldoni, dando início aos ensaios nos primeiros dias de Setembro, ao mesmo tempo, que lançava as bases da "Escola de Teatro". Em quinze dias, os dois primeiros actos da peça estavam marcados e a ser apurados. A 19 de Setembro, a Direcção do CCT/TEP recebeu um ofício da PIDE, informando que Jacobbi tinha 24 horas para abandonar o País, sem qualquer outro comentário!

A Direcção de Paulo Vallada encetou várias diligências (ver uma das cartas, neste site) e Jacobbi dirigiu-se de imediato a Lisboa, à sua Embaixada, aproveitando para escolher parte do guarda-roupa no "Anahory". A Pide apenas protelou a decisão por mais 24 horas, sendo Jacobbi acompanhado à fronteira de Valença, pelo cônsul italiano. Seguindo um plano concertado pela Direcção e elenco, o mestre italiano instalou-se em Vigo, onde à segunda-feira, Alda Rodrigues, sua assistente, se dirigia, integrada no grupo de portugueses que iam comparar bacalhau mais barato, e de onde voltava com o "fiel amigo" e as indicações do encenador. E, assim se cumpriu a data da estreia – 19 de Outubro de 1966, um dos momentos mais emocionantes da história do CCT/TEP.

Mais do que a saída de Ruggero Jacobbi, ele próprio e o que começava a significar, sentiu-se a imediata redução de subsídios e as medidas de urgência para resolver a crise. Fernanda Alves, uma das actrizes do elenco (que integrava, Isabel de Castro, Alda Rodrigues, João Guedes, Luís Alberto, Luís Jacobetty, David Silva) foi convidada a encenar o segundo espectáculo previsto por Jacobbi, "A SOBRINHA DO MARQUÊS", de Almeida Garrett (uma quase imposição do regime, esta peça), e que transformou num espectáculo extremamente divertido.

Fernando Gusmao

Para substituir Jacobbi, como director artístico, foi convidado Fernando Gusmão, que viria a encenar dois dos mais "limpos" espectáculos do TEP: "O TEMPO E A IRA", de John Osborn, e "FEDRA", de Unamuno (a primeira destas peças estava já na programação do encenador italiano), ao mesmo tempo que reactivava a Escola de Teatro, com a colaboração de Deniz Jacinto, Anne Rose Gilek e Pirmin Trecu. Fernando Gusmão, de novo uma esperança, de quem me orgulho de ter sido assistente, acabou por deixar a companhia, por desacordo na renovação do contrato (ou seja, afirmo-o eu, neste momento, por dois mil escudos de diferença nos honorários mensais!). Os orçamentos, muitas vezes, são ingratos para a gestão artística, e os erros de gestão deste tipo de instituições têm reflexos, como neste caso, em que, pouco depois, o TEP esteve quase para desaparecer. Aliás, os problemas do TEP e as divergências, sobretudo internas, sempre aconteceram pelas dificuldades ligadas aos apoios, vulgo subsídios (expressão de sentido pejorativo, usada por quem, ingénua ou maldosamente, não entende que o Teatro é um serviço público).

João Guedes, de passagem, entre outros projectos, dirigiu em seguida, dois espectáculos interessantes (um com as peças "O NOVO INQUILINO", de lonesco e "O TÚNEL", de Päer Lagerkvist; e o outro com a peça "VESTIR OS NUS", de Pirandello - outro projecto gorado de Jacobbi), após o que se seguiram anos de grandes dificuldades, com um elenco sem grandes rasgos e um orçamento cada vez mais magro. João Guedes viu ainda proibida a quinze dias da estreia, uma outra peça, "O REI ESTÁ A MORRER", de lonesco, que pouco depois era levada à cena em Lisboa, por outra companhia!...

Entretanto, o Teatro Universitário dera um grande salto, na parte final dos anos sessenta, sobretudo devido à contratação de encenadores estrangeiros, como foi o caso dos argentinos Vítor Garcia, principalmente, Juan Carlos Oviedo, Carlos Fernandez, Adolfo Gutkin e do catalão Ricardo Salvat, todos com o apoio da Fundação C. Gulbenkian. A Direcção do CCT/TEP optou, então, por contratar o argentino, radicado em Madrid, Júlio Castronuovo, para o que pediu, igualmente, apoio à Fundação.

Angel Facio

José Rodrigues

Cartaz A Casa de Bernarda Alba

Mas, o TEP era uma companhia profissional e trazer um encenador com créditos firmados não significava por si só, ter o problema de salários do elenco e montagens resolvido, ainda por cima com uma sala com 134 lugares que, mesmo que esgotasse diariamente e sem borlas, nunca resolveria o assunto. A aposta não teve força junto da SEIT (novo nome do SNI), e, apesar da qualidade dos espectáculos, surgiu de novo o espectro indeciso das dificuldades. De permeio, apenas a realização de espectáculos populares encomendados pela Câmara Municipal do Porto, que desde 1956 comprava regular e anualmente vinte representações de duas peças para oferecer à população, de preferência comédias de clássicos portugueses. A vinda de Angel Facio, na época com grande prestígio em Espanha, enquanto fundador dos Goliardos, surgiu como uma nova pedrada no charco. A apreensão do cartaz de Armando Alves (ver reprodução neste site), pela polícia, para além dos méritos artísticos inovadores do espectáculo concebido, "A CASA DE BERNARDA ALBA", com uma notável cenografia de José Rodrigues, impuseram esta produção, que se tornou popular no Porto, nas deslocações no País, nomeadamente em Lisboa, e na digressão europeia, que levou o TEP a Espanha, França, Itália e Jugoslávia. Vem a propósito contar o episódio do cartaz, de autoria de Armando Alves que, após colagem pelas ruas da cidade do Porto, depois de autorizado pelo regime, foi vandalizado e arrancado por uma equipa de arruaceiros e arruaceiras. Alguns sectores mais conservadores da Igreja, uma vez mais, consideraram, agora relativamente ao cartaz, que o mesmo era blasfemo, conseguindo que a Polícia de Segurança Pública se apresentasse no Teatro António Pedro, para o apreender, bem como ao programa do espectáculo. Chegou mesmo a ser marcada uma missa de desagravo ao Coração de Jesus, na Igreja do Marquês, no dia 13 de Abril de 1972, pelas 19h15, convocada pela Direcção Diocesana do Apostolado da Oração. O mais curioso é que a Direcção do CCT/TEP da época mantinha negociações com a direcção do Asilo do Terço, portas ao lado, e com ligações umbilicais à Igreja do Marquês!... O que é, também certo, é que esta campanha, que não teve reflexos na área ligada à Cultura do regime, teve efeitos positivos na divulgação do espectáculo e nas lotações esgotadas, que se lhe seguiram.

Enquanto uma parte da companhia percorria, pouco depois, a Europa, com "A CASA DE BERNARDA ALBA", outros espectáculos eram apresentados no Porto, com outro elenco. A direcção de Angel Facio introduziu um ambiente estético de modernidade no TEP, profundamente positivo e meritório, mas, tentando destruir todo o passado, muito particularmente, querendo anular a associação que estava por trás do TEP, e que sempre foi a garantia do seu percurso, mesmo com altos e baixos, levando a que uma Assembleia Geral, bastante participada, viesse a optar pela expulsão de Facio e de sete dos seus actores e técnicos, que, entretanto, haviam criado o Grupo de Teatro António Pedro, com que pretendiam substituir a estrutura da associação e da sua companhia profissional. Infelizmente, este processo, pouco significativo na época, veio a ter reflexos profundos duas décadas depois...

E o TEP chegou ao 25 de Abril, curiosamente com o espectáculo n° 100 em cena, "WOYZECK", de Büchner, numa encenação de José Cayolla, uma das figuras a quem a companhia ficou a dever muito, sobretudo após a manhã libertadora e pela dedicação extrema a esta Casa.

Jose Cayolla

Alguns factos a realçar no balanço do antes de Abril - a afirmação plena da companhia, a revolução estética iniciada por António Pedro, a criação de uma outra visão para o Teatro em Portugal, o exemplo seguido na criação de outras companhias, com particular destaque para o Teatro Experimental de Cascais, mas, com reflexos sobre todas as outras que ainda hoje existem (Cornucópia, Comuna, Seiva Trupe) e actuaram , ainda, na "noite negra". De um ponto de vista negativo, antes de mais a Censura e as perseguições do Estado Novo, apesar de alguma tolerância em curtos períodos, mas, o acto castrador que sempre significou, deixou sequelas profundas nos tempos que vieram a seguir. Por outro lado, uma instituição que chegou, ao 25 de Abril, com 21 anos de espectáculos, 22 de existência legal e 24 englobando a fase preparatória, viu muita gente sair, colectiva ou individualmente, muitos com opções estéticas ou outras divergentes, mas que, em muitos casos se transformaram em questões de fundo e até mesmo em divergências ferozes sobre o modelo e os actos daqueles que continuaram a luta pela afirmação da instituição, pesando, também, por vezes, alguns sentimentos mesquinhos e primários.

A sociedade portuguesa agitava-se e agigantava-se com o advento do 25 de Abril, abertura fantástica para uma criatividade nova e plena de Liberdade. Mas, igualmente, com alguns aspectos de radicalismo primário, que se reflectiram, no TEP, em situações quase anedóticas, como a decisão de retirar "WOYZECK" de cena, por ser uma peça reaccionária?!...

Por todo o lado surgiam novas companhias e grupos que assumiam a profissionalização, muitas vezes só porque se auto intitulavam como tal. Bons momentos eram, entretanto, criados, e a busca de novos públicos, que demonstravam grande interesse em acorrer às salas de Teatro ou a qualquer local improvisado para o efeito, geravam um movimento interessante e permanente. O TEP já não era a única companhia do Porto, e em todas constatava-se algum alinhamento muito mais consonante com ideologias ou opções partidárias do que com um projecto artístico consistente ao serviço da Democracia e da Liberdade. E o que se passava no País, era idêntico. As propostas teatrais eram mais próximas de um manifesto de agitação e propaganda, alinhadas na mudança, do que defensoras de uma via subversiva, que o Teatro sempre assumiu historicamente, usando critérios estéticos coerentes e abertos a uma arte popular eficaz. A profissionalização, por outro lado, processava-se sem qualquer rigor, pois bastava acorrer a um "curso rápido", aceitar assumir o Teatro como profissão e integrar uma estrutura produtiva (infelizmente, 34 anos após o 25 de Abril, o Teatro continua sem Lei de Bases séria e o estatuto de companhia e profissional de Teatro estão por definir). Somente o que nas novas estruturas criadas se transformava em opções estéticas coerentes e encabeçadas, no TEP corria ao sabor de coordenadas dispersas, que vieram a ter reflexos negativos, nos anos sequentes. Roberto Merino, exilado chileno que passou a residir no Porto, foi de certo modo o aglutinador de experiências, no período de crise. Generoso e devotado à causa teatral e à nossa companhia, acabou por ver reflectidas na sua orientação artística, grande parte das contradições da própria sociedade e do meio teatral, onde se integrou. Actos paralelos tinham cada vez mais importância e um dos que mais eficácia teve foi o da criação do FITEI, pelo TEP e Seiva Trupe, em 1978, renovado em 1979. A partir de 1980, foi criada uma cooperativa, que autonomizou a realização deste festival.

Continuando a não usar qualquer critério de análise crítica profunda aos espectáculos, destaco um evoluir de acontecimentos que culminaram naquilo que considero o momento mais dramático da existência do TEP, ou seja, o abandono do Teatro António Pedro, num acordo concertado com a União de Bancos Portugueses, proprietária do imóvel, de "resolução de contrato de arrendamento e cessão de benfeitorias", onde, considerando não ter alternativa, a Direcção de então, com uma indemnização de onze milhões de escudos, aceitou sair, condenando o emblemático Teatro à demolição, quiçá o momento emocionalmente mais negativo, para todos os que o viram ser construído e assistiram à sua afirmação. Ainda hoje, paro com emoção, como acontece com outros companheiros, numa ida ao Restaurante Abadia, olhando o "vidro" sem serventia de acesso, que substituiu a porta da rampa do Teatro António Pedro, onde tantos de nós nascemos para a cultura teatral! Embora com algumas (não muitas) referências na imprensa da época à hipótese do TEP abandonar o Teatro António Pedro, a escritura de abandono veio a ser assinada pela Direcção eleita em 15 de Dezembro de 1980, no dia 5 de Janeiro de 1981, já com o prédio devoluto, e sem recurso a qualquer Assembleia Geral! Diga-se, em abono da verdade, que a cidade do Porto, se alheou do assunto. Entretanto, o dinheiro recebido foi investido na Sala-Estúdio do TEP, à ex-Escola Académica, local ocupado pela comissão de moradores respectiva, na sequência do 25 de Abril, e onde a companhia permaneceu até 19 de Abril de 1994, data em que um violento incêndio destruiu as instalações, não sendo possível qualquer recuperação, até porque o edifício pertencia ao Montepio Geral, que nunca avalizou a ocupação.

Abandonado o Teatro António Pedro, a Câmara Municipal do Porto comprometeu-se a encontrar um local alternativo para a construção do novo Teatro, sendo, depois de outras hipóteses, escolhida uma área dos jardins do Palácio de Cristal (onde hoje está a Biblioteca Almeida Garrett), para a qual o arquitecto Viana de Lima assumiu o respectivo projecto, que veio a ser aprovado pela autarquia, no mandato do Eng. Paulo Vallada, decisão ratificada pela Assembleia Municipal. Simplesmente, nem os Corpos Sociais do CCT/TEP da época encontraram apoios para a concretização do projecto, nem as entidades oficiais demonstraram interesse em se mobilizarem para a sua construção! Muitos factores, externos ao CCT/TEP começaram a pesar neste período. Muitas pessoas que, individualmente, se afastaram do TEP, em décadas anteriores, ou que sempre tentaram desvalorizar a importância da nossa companhia, no panorama teatral do País, estavam na área do poder, em zonas de assessoria com importância nas decisões. E, foi através de conselhos "iluminados", que a então Secretária de Estado da Cultura, em 1988, Teresa Patrício Gouveia, fez depender a atribuição de um apoio de financiamento ao CCT/TEP da fusão entre a nossa companhia com outras duas a actuarem no Porto, que tinham resultado de cisões, no TEP, por motivos estéticos, opção de enquadramento só possível por mera medida administrativa. As outras duas eram o TEAR e Os Comediantes - ficaram as três sem qualquer apoio do Governo.

Mario Viegas

O CCT/TEP só em 1992 voltaria a ser apoiado pela SEC, tendo desaparecido as outras companhias citadas. A última parte dos anos oitenta, foi de um certo agonizar do TEP, apenas com pequenos apoios e um endividamento cada vez maior. Nem a passagem de Rogério Paulo e Fernando Gusmão, de novo no TEP o obviaram.E, nem o curto período de Mário Viegas, uma nova esperança, embora tenha trazido um público novo ao TEP, extremamente participativo, tivesse invertido a situação. A própria Direcção acabou por ficar reduzida ao seu Presidente, o Eng. Honório Novo, sem meios nem condições para prosseguir a obra e com um elenco fixo reduzido a uma actriz e três técnicos (Fernanda Gonçalves, Fernando Teixeira, Vidal Valente e Aurora Nazareth), que acumulavam vencimentos em falta. O processo de requisição da Utilidade Pública fora suspenso, o número de contribuinte tinha caducado, as dívidas rondavam os três milhões de escudos. E a credibilidade cultural era praticamente inexistente, restando a memória.

Na Assembleia Geral Extraordinária, de 26 de Novembro de 1990, Honório Novo apelou aos 21 associados presentes, ideias para a revitalização ou a entrega das chaves ao Governo Civil do Porto. Em 13 de Dezembro, foi constituída uma comissão administrativa, constituída pelos sócios Júlio Gago, Abel Fernandes, Fernando Teixeira, Luís de Carvalho, Almeida Teixeira e Jorge Santos, que em 31 de Janeiro fez aprovar as Contas relativas aos anos anteriores e apresentou uma proposta-base de lista a submeter a sufrágio, que viria a ser eleita, por unanimidade, em 25 de Fevereiro de 1991, presidindo à Assembleia Geral, o Eng. Carlos Sousa Baptista, ao Conselho Fiscal, o Eng. Aureliano Veloso e à Direcção, Júlio Gago, cargos em que se mantêm actualmente e com mandato até Maio de 2009. O caos organizativo era total e a Direcção eleita viu-se obrigada a pôr ordem na Casa, negociando com os credores e encontrando vias de repor a legalidade, ao mesmo tempo que tinha os primeiros contactos com as entidades oficiais. Foram aprovados novos Estatutos (os anteriores eram os primitivos, dos anos cinquenta), e novo Regulamento Interno. Paralelamente, dirigiu sucessivamente convites para assumir a direcção artística a Maria Ruiz, grande figura do Teatro espanhol, com negociações que se prolongaram durante 4 meses, sem êxito (foi, entretanto, nomeada directora do Centro Dramático Nacional II, em Madrid), com António Malonda, basco, também não concretizadas, após um mês de conversações, acabando por ser convidado o brasileiro Cláudio Lucchesi, professor na Universidade de S. Paulo e encenador, que havia feito um curso de Teatro, a convite da Seiva Trupe, no Porto.

Lucchesi dirigiu quatro espectáculos no TEP, constatando-se que o primeiro, "CABARET VALENTIN", de Karl Valentin, se tornou num dos grandes êxitos de sempre do TEP, quer no plano do público, quer nas receitas arrecadadas pela bilheteira.

A partir daqui é-me difícil continuar uma análise isenta, dado o envolvimento directo, deixando aos futuros homens do CCT/TEP e aos estudiosos, apenas os elementos, a partir dos quais lhes será possível analisar o TEP dos últimos 18 anos. Limitar-me-ei a referir apenas os principais passos e acontecimentos neles contidos, sem qualquer opção no que concerne às medidas tomadas e aos frutos reais da nossa acção. Em dezasseis anos (1992-2008) foram estreados 62 novos espectáculos, realizados três grandes exposições retrospectivas (Ateneu Comercial do Porto - 1993: Pavilhão de Exposições de Gaia - 1999 e Casa Barbot - 2003) e dezenas de temáticas: cinco cursos de Teatro; dezenas de colóquios, conferências e debates; foram publicadas várias obras de Teatro, particularmente sobre o TEP, destacando-se as que tiveram o patrocínio da Fundação Eng. António de Almeida, "O TEP E O TEATRO EM PORTUGAL - Histórias e Imagens", de Carlos Porto e "DALILA ROCHA - Homenagem", coordenada por Júlio Gago, com depoimentos de 40 personalidades: e as edições do TEP, "HOMENAGEM A JOÃO GUEDES" e "EXPOSIÇÃO 1953-1993". Foi dado emprego, embora precário na maioria dos casos, a cerca de 400 pessoas diferentes, entre actores, técnicos, administrativos e produção, não contando com direitos autorais e outras despesas contratadas; realizámos cerca de 3.200 representações a que assistiram cerca de 600.000 espectadores: apoiámos colectividades e escolas, em diferentes situações e necessidades, enfim…

No dia 19 de Abril de 1994, fomos confrontados com um violento incêndio, que destruiu completamente as instalações da Sala-Estúdio do TEP, à ex-Escola Académica, sendo obrigados a abandonar estas instalações, nunca licenciadas, onde o TEP apresentou os seus espectáculos desde Janeiro de 1981. Na sequência do incêndio, o então Secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes, disponibilizou a Casa das Artes, no Porto, que adaptámos a Teatro e onde apresentámos os espectáculos até finais de 1996, altura em que o então Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, com promessas alternativas nunca cumpridas, nos retirou o direito de utilização. Entretanto, e ainda na sequência do incêndio, em 1994, numa época em que da Câmara do Porto apenas sentimos vagas promessas, de locais sem solução, vimos a Fundação Eng. António de Almeida, disponibilizar um armazém de 1200 metros quadrados, na Rua da Restauração, para o qual o arquitecto Sérgio Secca elaborou um ante-projecto, e que foi inviabilizado por um equívoco, protagonizado por Pedro Santana Lopes. De Maio de 1997 a Maio de 1998, estreámos os nossos espectáculos no Teatro Sá da Bandeira em situações difíceis, nomeadamente actuando à noite, num local que até às 20h30 apresentava filmes pornográficos. Para este Teatro, elaborámos um plano de recuperação, que paralelamente instalasse o TEP, mas, que, apesar de importantes apoios já encontrados, inclusive na emigração, não teve o interesse da Câmara Municipal do Porto e Ministério da Cultura. De meados de Maio de 1998 a Fevereiro de 1999, igualmente em condições precárias, mas com o apoio inequívoco da sua Direcção, apresentámos três espectáculos no Clube Fenianos Portuenses.

O corte do apoio de financiamento do Ministério da Cultura para 1999, depois de redução nos anos precedentes, a partir do consulado de Carrilho, aliado ao desinteresse militante da Câmara Municipal do Porto, provocaram um colapso na acção do TEP, que impossibilitou a permanência na cidade do Porto, quarenta e seis anos volvidos sobre a estreia do primeiro espectáculo. Para a decisão ministerial de nos retirar o apoio, e após diligências directas, fomos informados de que havia sido tomada, após parecer da Vereadora do Pelouro de Animação da Cidade, Manuela Melo, personalidade que havia sido expulsa do CCT/TEP em 1973. Dias depois, a directora do IPAE/MC, Ana Marin, confirmaria no Telejornal da RTP, o apoio da Câmara Municipal do Porto para a decisão tomada!...

De imediato, a direcção do CCT/TEP pediu audiência ao Dr. Fernando Gomes, que foi recusada, com a indicação de que a Vereadora Manuela Melo nos recebia, acto que considerámos desnecessário, em função do atrás exposto. Recebidos por quase todos os grupos parlamentares da Assembleia da República e pela Sub-Comissão de Cultura, bem como pelo Governador Civil do Porto, em todos encontrámos solidariedade, mas nenhum apoio a uma solução prática. Fomos, portanto, confrontados com duas decisões possíveis - parar a actividade profissional da nossa companhia ou encontrar apoio na periferia.

>>TEP EM VILA NOVA DE GAIA <<

Analisada a situação em reunião de Direcção, chegámos à conclusão de que o concelho de Vila Nova de Gaia era o que tinha melhores condições para nos receber, assim o entendessem os seus responsáveis máximos. Após um primeiro contacto exploratório com Júlio Martins, da assessoria de imprensa da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, e velho companheiro destas andanças teatrais, telefonei ao Dr. Pedro Vinha Costa, amigo de Luís Filipe Menezes, que nenhum de nós conhecia pessoalmente, perguntando-lhe se ele achava que o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia poderia estar interessado nas propostas que tínhamos para lhe fazer. O Pedro Vinha disse-me que me dizia alguma coisa na semana seguinte, mas, telefonou-me logo, dez minutos depois, dizendo: - O Menezes recebe-os dentro de dois dias, às tantas horas, porque hoje e amanhã não pode.

Norberto Barroca

E, conforme o combinado, deslocámo-nos em representação do CCT/TEP, eu, o Dr. Serafim Nunes, o Eng. Aureliano Veloso, o Eng. Sousa Baptista e o Arq. Norberto Barroca, chegando a um consenso, na sequência da disponibilidade de Luís Filipe Menezes para receber a associação e a nossa companhia profissional em Gaia. Lealmente, e isto prova a forma de actuar de Menezes, avisou Fernando Gomes do contacto e do interesse na instalação do TEP, ao que o Presidente da Câmara do Porto lhe pediu uns dias para conversar connosco, reunião que foi feita, e onde ficou claro que a única hipótese de continuarmos a nossa acção era em Vila Nova de Gaia. No espaço de um mês, em reuniões sucessivas com Menezes e o seu Gabinete, ficou elaborado o Protocolo entre as duas entidades, assinado no Salão Nobre do Município de Vila Nova de Gaia em 27 de Março de 1999, Dia Mundial do Teatro.

Previamente, foi convocado o Conselho Cultural, em 12 de Março, que deu parecer favorável, por unanimidade, à deslocação para Vila Nova de Gaia realizando-se em 15 de Março de 1999, uma Assembleia Geral Extraordinária, nos termos estatutários, para analisar a proposta da Direcção sobre a mudança da sede social, que veio, também, a ser aprovada.

A companhia profissional foi reconstituída, após uma curta paragem de dois meses, mantido o director artístico, Norberto Barroca, que assumira, pela primeira vez, estas funções, ainda no Porto, em Janeiro de 1998, e foi este que preparou o primeiro espectáculo de Gaia, o 178° do itinerário do TEP, precisamente "A LENDA DE GAIA", de Almeida Garrett, na versão de Manuela Machado. Espectáculo de grandes meios, utilizou o próprio rio, onde pequenas embarcações o integravam, e o espaço do cais de Gaia, com uma cenografia de vários palcos, a que o espectador assistia em três bancadas criadas para o efeito. Participaram nesta nova peça, não só os profissionais do TEP, como 102 figurantes, oriundos das associações culturais e desportivas gaienses, Centro de Recreio Popular de Arnelas, Centro de Recreio Popular de S. Tiago, Grupo Recreativo Mocidade Corveirense, Spoting Clube Candalense, Tuna Musical "A VENCEDORA"de Vilar de Andorinho, Tuna Musical de Santa Marinha, Grupo Benificente "Os Amigos dos Pobres de Grijó", Clube Náutico de Crestuma, Academia de Música de Vilar do Paraíso, Associação Recreativa "Os Mareantes do Rio Douro", Grupo Paroquial e Recreativo de Mafamude, Escola de Dança Ginasiano, oito cavaleiros e os técnicos do Auditório Municipal de Gaia. Dois dias depois, e no extinto Pavilhão de Exposições de Gaia, foi apresentada uma exposição retrospectiva de todos os trabalhos apresentados pelo TEP, no Porto.

A partir de Setembro de 1999, o TEP passou a utilizar o Auditório Municipal de Gaia, como local de apresentação dos espectáculos, sendo o mesmo considerado sede artística do TEP, através do novo Protocolo assinado em 28 de Junho de 2003. A sede social e administrativa ficou instalada, a partir de 9 de Março de 2000, em edifício recuperado e disponibilizado pela Câmara Municipal, onde tinha estado instalada anteriormente a Junta de Freguesia de Mafamude.

Depois, e num curto balanço, poderemos destacar que nestes nove anos de sedeação do TEP em Vila Nova de Gaia, estreámos 36 novos espectáculos, efectuámos treze reposições, realizámos as I, II e III OFICINAS DE TEATRO - Acções de Formação, com a participação de 280 alunos das colectividades amadoras de Gaia e professores do ensino secundário gaiense, doze exposições sobre a temática teatral, apoio diverso e directo a colectividades e escolas e debates sobre a cultura teatral. Relativamente aos espectáculos estreados e até Outubro de 2008, o TEP realizou 1.318 representações a que assistiram 258.766 espectadores, numa média de 196 por sessão. Isto, num País onde a maioria das companhias profissionais atingem médias entre 30 e 60!... Importa salientar que, se retirássemos as excursões organizadas de escolas que assistiram aos espectáculos, a média seria de 119 por representação.

Refiro, ainda, que às representações especiais para escolas, no A.M.G. e, também, no Auditório do Centro Cultural e Social do Olival, gentilmente cedido pela Junta de Freguesia do Olival, a quem estamos permanente gratos, assistiram alunos e professores oriundos de 149 concelhos do Norte, Centro e Sul do País. E, tudo isto, se processa com fracos recursos de promoção e com reduzida difusão na comunicação social de dimensão nacional.

Mario Dias Garcia

Pela nossa parte, pensamos estar a cumprir com os objectivos que nos propusemos atingir. Para que isto esteja a acontecer muito tem contribuído o director artístico do TEP, Norberto Barroca, incansável na execução do projecto e na qualidade do seu trabalho, o director plástico, Mário Dias Garcia, freneticamente firme na criatividade e o elenco de actores, técnicos, administrativos e produção, que nos têm acompanhado, apesar dos baixos salários que praticamos e do muito que é exigido a todos, e que têm respondido com qualidade e eficácia. Destaque particular para a sintonia permanente conseguida com a equipa do Auditório Municipal de Gaia, do seu director, Dr. Manuel Filipe, a todos os colaboradores, que têm sido incansáveis no apoio à obra que estamos a executar.

Nada disto seria possível sem a população gaiense, e muito especialmente sem as suas colectividades, escolas, bem como as instituições mais representativas. O seu apoio, consubstanciado, sobretudo, na presença nos espectáculos e actos de difusão da cultura teatral tem sido notável. Com elas, temo-nos sentido mais fortes.

Mas, nada estaríamos a fazer sem o Município de Vila Nova de Gaia. Embora, com pequenos apoios de financiamento do Ministério da Cultura, temos consciência de que se a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o seu Presidente e o executivo autárquico nos retirassem o apoio que nos têm vindo a dar, o TEP ver-se-ia na contingência de paralisar toda a actividade. Mas, felizmente, sabemo-lo e estamos agradecidos, a visão de Luís Filipe Menezes e da vereação a que preside, é de aposta total na defesa do património histórico que representa o TEP e de apoio ao seu presente e ao seu futuro. A renovação do Protocolo, assinado em 2003, é a garantia de um envolvimento cada vez maior da Câmara nestes objectivos - as declarações de Luís Filipe Menezes, tão em contraste com outras vozes de políticos menores, mas com algum poder, ainda reforçam a confiança que temos em que vamos encetar novas etapas, com uma segurança de impulsos ainda mais dinâmica.

Ultrapassadas as comemorações das Bodas de Ouro de representações de teatro profissional em Portugal (2003), em que recebemos do Município de Vila Nova de Gaia, a Medalha de Mérito Cultural e Cientifico – Grau Ouro, e, embora tardiamente, uma reparação de uma injustiça do passado, a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, da Câmara Municipal do Porto, aguardamos a prenda mais emblemática – a criação do Museu de Teatro António Pedro, em Vila Nova de Gaia, onde, finalmente, o nosso património, aliado a centenas de doações de particulares, ligados à nossa história ou ao nosso primeiro director artístico, António Pedro, possam ser mostradas ao público de uma forma exemplar e com um serviço educativo que mostre aos estudantes a revolução estética operada no Teatro Português, no século XX, pelo Teatro Experimental do Porto. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e empresa municipal Gaianima, com o apoio do Ministério da Cultura, serão indispensáveis para a concretização do Museu, já previsto no Protocolo com o Município de Vila Nova de Gaia, de 1999, e o CCT/TEP tem, já em preparação o plano de garantia da instalação e manutenção deste Museu. O CCT/TEP tem tido, nos últimos nove anos, como principal cúmplice da acção, o Município de Vila Nova de Gaia, em moldes privilegiados, sendo a entidade, ao lado da Fundação Calouste Gulbenkian, nos vinte e cinco primeiros anos da nossa existência, que mais demonstrou pela prática um apoio inequívoco e à qual estamos para sempre gratos. Mas, pela nossa parte é importante salientar que temos vindo a reforçar com verbas próprias, sobretudo asseguradas pela bilheteira, um capital de desenvolvimento indispensável. Estas verbas, que, em 1999, eram apenas residuais, corresponderam, em 2007, a 40% do total de receitas obtidas.

Gostaria, para terminar este texto, que já vai longo, mas, contendo dados para o público e para os estudiosos que me parecem fundamentais, fazer uma curta síntese do nosso historial. O CCT/TEP mudou a forma de se fazer o Teatro em Portugal, mudou a forma de se articular o Teatro com as outras Artes e com as diferentes áreas do pensamento - é isto um facto histórico assumido e reconhecido.

Julio Gago

Teve momentos altos e outros de menor intensidade, sendo confrontado com todo o tipo de adversidades, incluindo as inimizades e as mais baixas vilanias, mas, também, soube criar amizades ainda mais fortes e duradouras. Criou exemplos, através do modelo perfilhado, mostrando ser possível que uma estrutura associativa de base amadora, possa criar uma estrutura profissional, com continuidade. Sem a associação CCT, o TEP já teria desaparecido há muito. Viu balas apontadas, com a ferocidade expressa nos olhos de quem as disparava, mas, ganhou uma certeza - NÃO NOS MATARAM ... SEMEARAM-NOS.

É com esta certeza que trabalhámos e vamos prolongar-nos no futuro, com todas as renovações que se tornem necessárias.

PELO CONCELHO DE VILA NOVA DE GAIA! PELO PÚBLICO! PELO TEATRO! PELO TEP! PELO FUTURO!

 

JÚLIO GAGO - Presidente do CCT/TEP

OS ESPECTÁCULOS

 

Pode consultar neste mapa a totalidade dos espectáculos do TEP desde1953 até à actualidade.

Critérios diferentes de enunciação da sua numeração, ao longo destas quase seis décadas, levaram a que a numeração dos espectáculos esteja feita de uma forma que não será a mais correcta. Sobretudo no que concerne às reposições, nas primeiras décadas consideradas como um novo espectáculo, o que não nos parece muito correcto, principalmente quando as encenações eram as mesmas, havendo apenas a alteração de um ou outro actor. Noutros casos, nem isso houve.

A partir dos anos noventa, optámos por considerar as reposições com o mesmo número do espectáculo de estreia, embora com a indicação da data da sua reposição.

Considerámos que não deveríamos alterar, por outro lado, as numerações antigas por estarem inscritas nos programas e referências de época e as mais recentes foram consideradas a continuação das mesmas.

Algumas peças, entretanto levadas de novo à cena, foram-no com outras encenações, como é o caso, por exemplo, de “Antígona”, de António Pedro, nas versões de 1954 e 1956, que tiveram alterações no texto, na encenação, nos cenários, figurinos e nos elencos, embora sendo as duas versões dirigidas por António Pedro, e a “Antígona”, de 2003, encenada por Norberto Barroca. Um outro exemplo, será o de “È Urgente o Amor”, de Luiz Francisco Rebello, com a versão antiga dirigida por António Pedro, em 1958, e a nova versão do texto feita pelo autor e dirigida por Norberto Barroca, em 2004. No caso de “Frei Luis de Sousa”, de Garrett, a encenação de Mário Jacques, em 1978, e a de Acácio de Carvalho, em 1994, são duas concepções da mesma obra, feitas por encenadores diferentes, como o foram outras diferentes direcções para “Os Malefícios do Tabaco”, “Auto da Índia”, etc.

AS ACTIVIDADES PARALELAS

Neste capítulo, muito haverá para mostrar. Ultrapassam largamente o milhar as actividades paralelas levadas a cabo pelo CCT – Teatro Experimental do Porto, através de iniciativas próprias ou em parceria.

No campo das mais relevantes, estão necessariamente as escolas, cursos ou oficinas de teatro – desde a primeira, dirigida por António Pedro, a outras, de que foram responsáveis figuras como Augusto Gomes, Deniz Jacinto, João Guedes, Ruggero Jacobbi, Fernando Gusmão, Carlos Cabral, Julio Castronuovo, Angel Facio, Roberto Merino, José Cayolla…até às Oficinas de Teatro – Acções de Formação já efectuadas em Vila Nova de Gaia, com coordenação de Norberto Barroca (2000-2002), e que voltarão este ano.

As exposições retrospectivas e temáticas, de universos específicos sobre o TEP ou transversais, ultrapassam a casa das centenas. Os colóquios, debates, seminários, conferências, com figuras relevantes da cultura portuguesa ou internacional, não podem ser menosprezados. Relevo, também, para os inúmeros recitais ou representações específicas, como a primeira actuação pública de Manuel Freire; o recital de Jorge Peixinho; “A Voz Humana”, por Maria Barroso; o espectáculo “To Beat or Not To Beat”; os espectáculos concebidos expressamente para as festas do secretário da companhia, Lopes Valente, nos anos sessenta; as acções sobre diferentes vertentes do teatro, das artes e da cidadania; as sessões de poesia; os espectáculos concebidos expressamente para outras instituições; as animações de sala ou de rua, enfim… A criação do FITEI, com a Seiva Trupe, os prémios para textos teatrais, a residência de autores, a colaboração com grupos de amadores ou escolas, são de igual relevo.

Toda esta informação está a ser sistematizada e gradualmente vai ser disponibilizada.

Como aperitivo, ficam já disponíveis, a primeira conferência (do Prof. Hernâni Silva, “Introdução ao Conhecimento do Teatro Antigo”, em 12 de Maio de 1951), através de uma notícia em “O Primeiro de Janeiro” e das duas primeiras exposições de arte, realizadas no Teatro S. João (em 18 de Fevereiro de 1954) e na Galeria Alvarez (em 5 de Junho de 1954), para a obtenção de fundos destinados à construção do Teatro de Algibeira.

 

Anuncio PJ - Primeira Conferencia realizada por cct-tep em 14-05-1951 Exposição de Artes Plasticas Exposição de Desenho, Pintura e Escultura - Academia Dominguez Alvarez

 

E, ficam, igualmente, duas das mais recentes iniciativas nossas: a da homenagem a Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues (os 4 Vintes) e Jaime Isidoro, acompanhada da exposição “4+1 Artistas no Teatro Experimental do Porto” ; e a da exposição retrospectiva “Joaquina Garcia, Mestra de Guarda-Roupa” , realizadas em 2008.

 

 

Sessão de Homenagem a Cinco Artistas Plásticos no TEP:

- ÂNGELO DE SOUSA, ARMANDO ALVES, JORGE PINHEIRO, JOSÉ RODRIGUES E JAIME ISIDORO

A Assembleia Geral Extraordinária, realizada em 19 de Março de 2008, nomeou, sob proposta da Direcção, os artistas plásticos Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues (Os 4 Vintes) e Jaime Isidoro como novos Sócios Honorários do CCT/TEP, dada a sua colaboração exemplar, enquanto cenógrafos, figurinistas e autores de cartazes do Teatro Experimental do Porto.

Esta homenagem, está também, relacionada com os 40 anos, que este ano se comemoram, da primeira exposição dos “4 Vintes”, que o 5º homenageado, Jaime Isidoro, acolheu na sua Galeria Alvarez, em 1968. Esta exposição, teve uma extensão, no mesmo ano, à Cooperativa Árvore.

A Sessão de Homenagem realizou-se no dia 18 de Junho de 2008, pelas 18H00M, na Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo, na Rua Teixeira Lopes, 32, em Vila Nova de Gaia, com a presença dos homenageados, que receberão os diplomas de Sócios Honorários do CCT/TEP.

No seguimento desta cerimónia, foi inaugurada a exposição “ 4+1 Artistas no Teatro Experimental do Porto”, com 58 obras do património do CCT/TEP e dos artistas envolvidos.

Esta Exposição esteve disponível até 24 de Agosto, na Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo, de terça-feira a sábado, entre as 9H00 e as 12H00 e entre as 14H00M e as 17H00M, e ao domingo, entre as 10H00M e as 12H00M, e entre as 14H00 e as 17H00M.

Todos estes actos tiveram o apoio do Município de Vila Nova de Gaia e da empresa municipal Gaianima.

Em seguida inserimos os textos de Júlio Gago “4+1 Artistas no Teatro Experimental do Porto”, e de Laura Castro, “Contingências, Casualidades e Conveniências” , que integram o catálogo da Exposição.

 

" 4 + 1 ARTISTAS NO TEATRO EXPERIMENTAL DO PORTO "

A Direcção do Círculo de Cultura Teatral / Teatro Experimental do Porto definiu o ano de 2008 como o ano de homenagear cinco artistas plásticos relevantes em todo o seu historial. E, escolheu este ano, porque, embora as suas colaborações com o TEP fossem anteriores a essa data, os cinco artistas plásticos homenageados estiveram ligados a um projecto transversal da cidade do Porto, de que se comemoram 40 anos. Com efeito, foi em 1968 que foi inaugurada no Porto a exposição dos “4 Vintes” (Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues), que teve como anfitrião, na Galeria Dominguez Alvarez, um outro artista plástico, Jaime Isidoro, que não quisemos deixar de ligar a esta efeméride porque, também os cinco, foram figuras marcantes do itinerário do CCT/TEP.

A obra do Teatro Experimental do Porto ficou, antes de mais, marcada pela presença fundamental de António Pedro, artista multifacetado e figura central de um processo de renovação estética que transformou o Teatro em Portugal, com a introdução da encenação moderna.

E, se esta revolução estética partiu necessariamente do trabalho do actor, personagem central do binómio teatral, ao lado do espectador, com a criação de uma nova escola de formação que actualizou a técnica de representação, nos planos da voz, do corpo e do movimento, foram cruciais os novos desenvolvimentos dados à integração na obra de arte colectiva, sob a direcção do encenador, da luz, do som e outras técnicas, e, com particular destaque da cenografia e dos figurinos.

António Pedro foi um criterioso investigador do Teatro no seu sentido histórico, das artes transversais que se aproximam do mesmo, da literatura que o sustenta no texto e das pesquisas e efeitos práticos que, sobretudo a partir da transição dos séculos XIX para XX, lhe trouxeram tantas inovações. Jorge de Saxe-Meiningen, Antoine, Stanislawsky, Meyerhold, Vagtankhov, Jacques Copeau, o Cartel dos Quatro (Georges Pitoëff, Louis Jouvet, Charles Dullin e Gaston Baty), Gordon Craig, Adolphe Appia, Artaud, Jean Villar, grandes teóricos e encenadores, mas, também, as obras literárias, artísticas e inovadoras de um século em transformação, onde marcaram excelentes aproximações ao Teatro figuras como R. Rolland, Tchekov, Pirandello, e, igualmente,na criação artística, Léger, Picabia, Calder e tantos outros, eram personalidades de quem António Pedro muito bem conhecia as obras, tantas vezes por contactos estabelecidos na sua vagabundagem pela Europa, no caso dos seus contemporâneos. António Pedro, que nunca concluiu nenhum dos cursos em que se inscreveu, foi um estudante da universidade da vida, onde, enquanto autodidacta, tão longe das cronologias dos académicos, pouco ou nada criativos e mais memorialistas, definiu um sistema criativo para si próprio e um acto colectivo de criação a partir do saber humano já obtido nestas vertentes, para os que consigo davam nova coordenadas ao Teatro.

Pintor, escultor, ceramista, poeta e prosador, jornalista, editor, homem da rádio e da televisão, criador de cortejos históricos, António Pedro foi, sobretudo, um homem de teatro, para o qual canalizou todos os conhecimentos que foi adquirindo e que transportou para uma prática, sempre apoiada numa teoria que tinha em conta os conhecimentos das grandes revoluções estéticas do século XX, mas com a consciência de que o Teatro não é para apenas alguns, mas serve públicos no seu sentido mais amplo. O sentido da sua obra teatral foi o de que não há génios incompreendidos nesta arte, apenas génios consagrados em vida, embora aceitando as excepções de Musset e Kleist, na concepção assumida de que “sem público não há Teatro”.

As coordenadas da sua intervenção cénica e a ética que lhe é próxima foram definidas na escola que criou com o TEP, a partir de uma primeira aula dada, no Clube dos Fenianos Portuenses, em 7 de Março de 1953.

Neste texto que serve de apresentação à homenagem que ora efectuamos e que consagra Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues e Jaime Isidoro como novos Sócios Honorários do CCT/TEP, comecei por falar de António Pedro para que se perceba um pouco da sua revolução e a inserção das diferentes vertentes literárias e artísticas no Teatro, onde os mesmos se vieram a integrar. E, vou deixar de lado as outras vertentes, neste trabalho, centrando-me a partir daqui na colaboração dos artistas plásticos nesta obra.

A concepção plástica da obra teatral, no conceito de António Pedro, aqui entre um certo realismo de Copeau ou Stanislawsky e as novas correntes estéticas, no teatro sobretudo encabeçadas por Craig, Appia ou Artaud, aproveitando as novas tecnologias, foram uma espécie de base para o manual de pedagogia teatral e de aproximação às Artes Plásticas. Durante a sua direcção artística no TEP (1953-1961) juntou um corpo de artistas plásticos em volta das suas obras, velhos amigos, como Fernando de Azevedo, que o acompanhou na aventura surrealista, ou Manuel de Lima; novos criadores como Fernando Fonseca, Augusto Gomes, quiçá o mais importante nesta fase, Eduardo Luís, Álvaro Portugal, Baptista Fernandes e outros; ou Mário Alberto, com um percurso já reconhecido em Lisboa. Mas, foi neste período que começou um esforço de ligação à Escola Superior de Belas-Artes do Porto, hoje Faculdade, onde surgiram, entre outros, os artistas plásticos ora homenageados, com a ressalva de que Jaime Isidoro foi um colaborador desde 1953, não só na construção do Teatro de Algibeira, como na colaboração em cenografias, e participante, inclusive, como figurante em espectáculos, facto pouco conhecido hoje, e estando ligado à organização das duas primeiras exposições-venda de obras de arte a favor da construção do nosso primitivo teatro (em Fevereiro e Junho de 1954, esta última no início da actividade da Galeria Alvarez).

Ângelo de Sousa foi, nos outros quatro, o primeiro a responsabilizar-se por uma cenografia no TEP, em “Credores”, de Strindberg, com encenação de João Guedes. Ainda tendo como ponto de referência o período de António Pedro, devo salientar que a dimensão da utilização da cenografia nos seus espectáculos era muito próxima da concepção estética do encenador, igualmente artista plástico de nomeada. Apenas Augusto Gomes, e até certo ponto Eduardo Luís ousaram conceber obras indiscutivelmente autónomas, mas integradas no colectivo. Ângelo de Sousa surgiu no TEP num período em que os novos encenadores (João Guedes, Dalila Rocha, Alda Rodrigues, Jacinto Ramos) não eram artistas plásticos, embora com a concepção global do espectáculo, permitindo-lhe uma nova criatividade, integrada no colectivo, mas, resolutamente mais “solta”. Poderei dizer mesmo e enquanto me recordo desses trabalhos, com a memória avivada pelas imagens fotográficas dos espectáculos, já que não temos outras, que o Ângelo foi o primeiro cenógrafo do TEP a exercer a sua função com relativa autonomia, e onde o seu bom gosto teve particular importância. Eu sei, Ângelo, e sempre me disseste que foste injustamente compensado pelos trabalhos realizados em detrimento de artistas bem menos importantes valorizados pelo facto de virem de Lisboa!... E, foi verdade. Mas, é também verdade que globalmente a crítica, (se é que ela existia com clareza e tantas vezes a perceber muito pouco do que era a criatividade das diferentes componentes do espectáculo), te saudou como novo cenógrafo importante, como se pode depreender dos comentários da época. Pode não ter percebido a concepção, mas percebeu o sentido abstracto da inovação. Em “Credores”, de Strindberg, que o João Guedes encenou, surgiram indicados no programa do TEP, António Quadros, Justino Alves, Ângelo de Sousa e Augusto de Carvalho como cenógrafos, como se quatro cabeças tivessem recriado plasticamente na cena o ambiente nórdico da época em que os factos ocorreram, num espectáculo que consagrava, também, uma colaboração mais estreita entre o TEP e a ESBAP. Mas, nós sabemos e muitos outros o sabem, que a concepção plástica do espectáculo foi fundamentalmente tua e que tu foste o operário da sua execução. Recordo, também, a admiração que o João Guedes tinha por ti, pela tua generosidade e capacidade de trabalho no teatro e pela consciência de que abordavas vertentes que pareciam tão distintas do resto do teu trabalho enquanto artista plástico, e onde a paixão pela fotografia e imagens em movimento se começava a fazer sentir com mais consistência.

Ângelo de Sousa foi o primeiro artista plástico importante a construir cenários de autonomia em obra colectiva no TEP. E foi o primeiro artista plástico no TEP, a conceber uma cenografia rigorosa a partir da qual o encenador movimentava o seu trabalho. Ficaram para o futuro, igualmente, belos figurinos, alguns mais próximos da recriação de uma época, como os de “Jorge Dandin”, outros onde a ilusão e a utopia imperavam como os de “O Vagabundo das Mãos de Oiro” ou de espectáculos infantis para os quais os concebeu.

O TEP trabalhava por essa época, os anos sessenta, num ritmo alucinante, em que não se parava entre peças, tantas vezes apenas com um mês para conceber um novo espectáculo em todas as suas vertentes, e foi dentro destas coordenadas que os artistas plásticos, oriundos da ESBAP, começaram a trabalhar.

O ano de 1965 foi talvez um dos anos mais dinâmicos na relação entre as diferentes vertentes das Letras e das Artes no Porto. Os cafés São Lázaro, Magestic e Santiago, mas, também a Confeitaria Primus, eram locais de grandes discussões estéticas em volta de uma nova modernidade e de novos conceitos. Parecia surgir uma nova revolução estética, em simultâneo com um Mundo em que muito era mudado. As gentes do Teatro, das Artes Plásticas, do Cinema, da Música, da Literatura, tal como uma parte significativa da população, escutava os novos ventos, criando e ousando enfrentar todas as barreiras que o regime, a tradição e o conservadorismo procuravam impedir. ESBAP, Galeria Alvarez, Árvore, Cine-Clube do Porto, Juventude Musical, TEP, Instituto Francês, Parnaso e com algumas novas dinâmicas, o Círculo de Cultura Musical, a Associação de Jornalistas e o Ateneu Comercial, eram locais obrigatórios de intervenção. E as noites loucas nos restaurantes Transmontano e Ginjal, para ceias onde o vinho e as artes imperavam, prosseguindo em directas consecutivas. E, foi nesse ambiente que, primeiro o Armando Alves, depois, o Jorge Pinheiro e o José Rodrigues surgiram no TEP, concebendo cenografias e figurinos para a memória. O Armando Alves criou apenas uma cenografia para o “Auto da Feira”, de Gil Vicente, integrado no espectáculo que Carlos Avilez encenou, mas, veio a ser um dos colaboradores gráficos mais importantes do TEP, sobretudo por cartazes como os de “O Gebo e a Sombra”, o do FITEI, e, principalmente, o de “A Casa de Bernarda Alba”, cuja polémica pública levou à sua apreensão pela PSP, acusado de indecência!... Como se pode ver nesta Exposição, a sociedade portuguesa da época regia-se por princípios muito retrógrados…Mas, a tua marca, Armando, ficou.

Jorge Pinheiro concebeu o cenário para “A Grande Cólera de Philippe Hotz”, logo a seguir. Foi um cenário limpo e imaginativo para um texto difícil, após os cortes que a Censura impôs. Este espectáculo foi estreado, enquanto o vicentino concebido por Carlos Avilez percorria o País com grande êxito e polémica. E, talvez por tudo isso, sendo um espectáculo que teve poucas representações, pouco público e pouco dinheiro para a sua produção, não ficou como um momento alto do itinerário do TEP. E, tu, Jorge, ficaste com a mágoa de receber uma crítica negativa para o teu cenário de um fazedor de opinião da nossa praça. Crítica injusta, sabem-no os que viram o espectáculo, mas que te abalou, afastando-te de uma presença mais constante no Teatro. Infelizmente as imagens fotográficas que nos restam dão mal para ver o cenário, e não existem outros meios de registo. Mesmo os teus desenhos para o espectáculo, onde estarão?...

“A Grande Cólera de Philippe Hotz”, foi apresentada num mesmo espectáculo com “O Guiché”, de Jean Tardieu, que teve cenário de Tito Roboredo, também para uma encenação de João Guedes. A própria ligação de dois textos tão diferentes, dentro das aprovações da mesa censória, colocaram o espectáculo num plano injusto. Mas, no TEP, sabemos a importância deste teu trabalho, que o João Guedes prezava particularmente.

José Rodrigues, já visita da Casa e colaborador, surgiu pela primeira vez a assinar uma cenografia (com Alexandre Vasconcelos), em “Desperta e Canta”, de Clifford Odets, a que se seguiu um dos grandes trabalhos cenográficos no nosso País, o de “O Gebo e a Sombra”, de Raul Brandão, ambos com encenação de Ernesto de Sousa (para esta peça, com um notável cartaz de Armando Alves). E, José Rodrigues não mais parou, cotando-se como um dos mais importantes cenógrafos do século XX em Portugal. Aliás, na área da cenografia também em Espanha.

Foram quinze os cenários que José Rodrigues fez para o TEP entre 1965 e 1997, quinze criações notáveis aplaudidas por todos. E, em alguns dos casos, acompanhados pela criação dos figurinos (noutros, os figurinos foram de Rosa Ramos, e, no caso de “Henriqueta Emíla da Conceição”, de Juan Soutullo). José Rodrigues, nos anos oitenta, integrou a direcção artística do TEP, e fez parte de vários Conselhos Culturais ao longo de três décadas. A sua marca no TEP é indiscutivelmente relevante, sendo uma das maiores figuras desta casa.

Entre os trabalhos de José Rodrigues para o TEP, o que acabou por assumir maior relevância foi, sem dúvida, o de “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico Garcia Lorca, na encenação de Angel Facio; um dos espectáculos mais notáveis do TEP e um dos que maior polémica assumiu. Embora uma parte substancial da polémica estivesse ligada ao cartaz de Armando Alves, a concepção de Angel Facio para a tragédia lorquiana transformou-o num êxito nacional e nos vários países europeus por onde o TEP passou (Espanha, França, Itália, Jugoslávia). Mas, o cenário foi um dos protagonistas deste espectáculo, como se poderá ver na maquete exposta (elaborada por Jorge Pinto a partir das indicações de José Rodrigues), tendo permitido a criação de toda a atmosfera erótica que a encenação de Facio pretendeu. Foi, sem dúvida, um dos grandes cenários concebidos em Portugal no século XX.

Não farei uma análise exaustiva a toda a obra de José Rodrigues no TEP, o que seria difícil num texto curto como este, mas, espero que alguém o faça. Mas, permito-me destacar quatro outras concepções de excepção, entre outras notáveis: as de “O Soldado e o General”, êxito em Portugal e na Venezuela, onde o TEP se deslocou, “Os Emigrantes”, “Yerma” e “Henriqueta Emília da Conceição”. Meu caro Zé, o TEP agradece-te, também, a forma graciosa como colaboraste quase sempre.

Jaime Isidoro foi o último destes artistas a entrar em cena como cenógrafo do TEP, mas logo num dos seus momentos mais altos. Ruggero Jacobbi foi, quiçá, a mais importante personalidade do Teatro Mundial que passou pelo TEP. Co-fundador, com Visconti e Vito Pandolfi, da primeira companhia italiana do pós-guerra, e fundador-director do Piccolo Teatro de Milão, com Giorgio Sthreler e Paolo Grassi; nos anos cinquenta rumou ao Brasil, sendo unanimemente reconhecido como o renovador do teatro brasileiro. Em Agosto de 1966, veio dirigir o TEP e escolheu Jaime Isidoro para seu primeiro cenógrafo, em “A Estalajadeira”, de Goldoni. Infelizmente, a Pide expulsou-o do País, três semanas após o início do seu trabalho, continuando a dirigir o espectáculo, a partir de Vigo, onde se instalou, fazendo chegar as suas indicações através da assistente de encenação, Alda Rodrigues.

Jaime Isidoro concebeu um cenário exemplar para “A Estalajadeira”, num processo atribulado, dando todo o ambiente à cena que Jacobbi pretendeu para esta comédia, em que Goldoni se libertava dos valores clássicos da Commedia Dell'Arte, tornando-a mais realista. Sendo um óptimo cenário, pergunto-me Jaime, porque não voltaste a fazer outros para o TEP?

Vou ficar por aqui nestas reflexões históricas sobre o trabalho destes 4+1 artistas no Teatro Experimental do Porto, mas desejo ainda, e para terminar, deixar algumas palavras para quem visita a Exposição e participa nesta homenagem.

O Teatro é uma obra colectiva, mas feita de destaques individuais em que cada um necessita de se ultrapassar para que o todo seja mais eficaz. É uma obra em que o individualismo está coartado pela concepção global e colectiva, mas precisa de se distinguir de uma maneira homogénea. Muitos espectáculos falham, porque um ou outro actor, um ou outro cenógrafo ou músico ou iluminador se mostra menos eficaz. É uma obra colectiva, sob a direcção do encenador (é assim desde Jorge de Saxe-Meiningen, por volta de 1870), a figura coordenadora do Teatro Moderno, mas onde todas as áreas se podem valorizar em conjunto, e devem fazê-lo. O trabalho do cenógrafo ou do figurinista, independentemente da opção estética em que se inserem, é determinante. O binómio teatral clássico é composto pelo actor e pelo público. Mas, as outras áreas têm no último século um papel na representação ao nível do actor. São os outros actores na cena. E, Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues e Jaime Isidoro foram actores do TEP que mereceram (merecem) as palmas do público. E estão entre os Artistas Plásticos contemporâneos mais importantes, reconhecidos em Portugal e no Mundo.

Júlio Gago

Presidente do CCT/TEP

 

CONTINGÊNCIAS, CASUALIDADES E CONVENIÊNCIAS

Ao consagrar a actividade que cinco artistas contemporâneos desenvolveram no Teatro Experimental do Porto, considerou-se oportuna a realização de uma exposição que não se limitasse à apresentação do trabalho de cenografia e figurinos com ela relacionado, mas que evocasse a obra que cada artista realizou fora desse âmbito, naquele que foi, afinal, o seu domínio privilegiado de trabalho. Assim, se Júlio Gago contextualiza o trabalho desses cinco artistas no TEP, a mim cabia-me a referência à sua produção artística. A mim, de modo conveniente, uma vez que também venho acompanhando, do lado de dentro, o percurso do Círculo de Cultura Teatral/TEP dos últimos anos.

O título da presente exposição recorda o momento em que os cinco artistas homenageados se encontraram e que corresponde à altura em que o TEP acolhia a maior parte das suas colaborações, a década de 60. Tem implícita a referência ao grupo Os Quatro Vintes (1968-1971) formado por Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues, com idades que oscilavam entre os 30 e os 37 anos, quando eram já professores na Escola Superior de Belas Artes do Porto, depois de terem feito estadias de estudo em algumas cidades europeias como bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian. Apresentam a sua primeira exposição como grupo em 1968 na galeria então dirigida pelo quinto artista que nos interessa, Jaime Isidoro. Foi esta circunstância histórica, verificada pelo CCT/TEP que levou, mais uma vez, a reuni-los.

Para que conste – também uma vez mais – o nome do grupo alude à classificação obtida no final do curso da ESBAP pelos quatro artistas. O grupo realizou exposições na Galeria Alvarez, em 1968; na Cooperativa Árvore, no mesmo ano; na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, em 1969; na Galeria Jacques Desbrières, em Paris, no ano seguinte e na Galeria Zen, no Porto, em 1971. A importância que a história e a crítica lhe atribuíram, ao contrário dos próprios que decidiram o fim do grupo depois de quatro anos de actividade, verifica-se no número de acções póstumas que lhe tem sido dedicado, particularmente as exposições Os Quatro Vintes. 15 Anos depois , realizada na Casa do Infante, no Porto, em 1985; Os Quatro Vintes nos 25 Anos da Árvore , em 1989 e a exposição realizada na Cooperativa Árvore, em 2001 integrada numa mais vasta, Porto 60/70. Os Artistas e a Cidade .

A formação de grupos efémeros de artistas com afinidades comuns representa uma dinâmica cultural relevante na evolução artística do século XX. Grupos formalmente constituídos com símbolo próprio e manifesto, documento de apresentação, acções concertadas de exposição e divulgação; grupos agregados em torno do entendimento colectivo de uma ideia ou prática, em que os elementos vão variando, saindo uns e associando-se outros; grupos formados em função de conveniências do momento, aproveitando circunstâncias oportunas. A história da arte do século XX no Porto pode ser lida através de alguns grupos relacionados com determinados espaços expositivos, com determinados críticos e com determinados meios de divulgação. Neste contexto histórico, esses grupos foram quase sempre entendidos em alternativa a uma ordem instituída pela Academia ou Escola de Belas Artes, como um desafio às práticas académicas, procurando o alargamento das possibilidades expositivas e contribuindo para a consolidação de uma cultura artística que também se faz destes acontecimentos.

No caso que nos interessa, Os Quatro Vintes fazem, na primeira exposição, uma edição de 500 cartazes com o título global de A Cidade e as Serras ou onde se fala por falar a propósito da nossa exposição colectiva no Porto seguida de uma comparação entre Porto e Lisboa, particularmente do seu panorama cultural, com a dose bastante de absurdo e de sentido de humor que a situação pedia. Datado de 20 de Novembro de 1968, este documento destinava-se a provocar o meio artístico.

Neste momento, Jaime Isidoro vestia sobretudo a sua pele de galerista, de animador cultural, de homem de intervenção, o único, no Porto, com interesse para absorver e divulgar as experiências que o grupo propunha. O galerista era, no entanto, apenas um dos Jaimes Isidoros que conhecemos e estava naquela situação depois de ter iniciado uma carreira de pintor nos meados anos 40 e de ter abrandado deliberadamente a sua actividade pictórica ou, pelo menos, a respectiva divulgação, entre cerca de 1954 e 1986, quando retoma a pintura como ocupação fundamental. No início de carreira coleccionara quase todos os prémios que então eram atribuídos – dois em 1947; dois em 1948; três em 1949; dois em 1950; um em 1951, 1952 e 1954 – e a partir dos anos 80 recuperará uma visibilidade e uma actividade expositiva notáveis que permanecem.

A obra realizada pelos quatro artistas que primeiramente referimos, no contexto do grupo, apresenta alguns aspectos comuns ao explorar a renovação das questões matéricas (madeira pintada; chapa recortada e pintada; acrílicos transparentes; areia, terra; ferro e aço; tintas industriais); ao explorar o conceito de objecto não inscrito numa prática definida de escultura ou pintura; ao explorar o sentido de espacialidade da obra (objectos que escorrem da parede para o chão; em plintos habitualmente reservados à escultura; utilização do pavimento); ao negar a representação e a narração, preferindo formas limpas e depuradas (excepção feita aqui ao carácter poético das operações de José Rodrigues. É inegável o sentido de experimentalismo ensaiado por cada um dos artistas, tal como o carácter singular que cada um impôs ao desenvolvimento da sua própria obra. Nos casos de Ângelo de Sousa e de Armando Alves, o final dos anos 60 e o início dos anos 70 foi revisitado e ambos recuperaram os objectos então projectados, para uma execução tardia, nos anos 90 e 2000. No caso de José Rodrigues, é difícil falar de recuperação, uma vez que a sua produção se desenvolve em temas obsessivos, mais do que em ciclos distintos que se sucedem. Finalmente, na obra de Jorge Pinheiro, não se pode dizer que tenha havido citações daquele período, muito menos um regresso.

Jaime Isidoro, por sua vez, retoma nos anos 80 pretextos e modelos formais dos anos 50, em paisagens ou meras evocações de paisagens, incessantemente renovadas e evolui, talvez inesperadamente para alguns, para uma experimentação em que até a aguarela, modo tão tradicional de operar, rompe o suporte habitual.

Geração, grupo, tribo, projecto e outras tantas designações aplicar-se-iam aos desafios idênticos, ao momento histórico comum, à coincidência da formação académica, à familiaridade de práticas artísticas, mas já não seria tão simples no que se refere às afinidades estéticas, ideológicas, conceptuais. Como se vê, todos os critérios são falíveis, frágeis, circunstanciais e contingentes. Todos são igualmente válidos e convenientes para a criação de novos actos culturais. Podem ter sido várias casualidades afortunadas que juntaram os quatro a um quinto artista, no TEP e fora dele. Mas é destas ocorrências que a vida artística se faz; é com estes episódios que se preenche o movimento das grandes estruturas; é destas circunstâncias que nascem manifestações como a presente exposição. Contingências e casualidades que contribuem também o conhecimento que temos destes artistas, e que podem configurar mais um caso da chamada “cultura de conveniência”, aproveitamento abusivo mas bem intencionado da expressão de George Yúdice, “the expediency of culture”.

Laura Castro

 

JOAQUINA GARCIA, Mestra de Guarda-Roupa

EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA

Entre 20 de Setembro e 5 de Outubro de 2008, no foyer do Auditório Municipal de Gaia, foi apresentada uma exposição sobre a obra da mestra de guarda-roupa, Joaquina Garcia, que executou figurinos para as principais companhias de teatro do País, concluindo a sua carreira profissional no TEP, entre Março de 2001 e Fevereiro de 2008. Na exposição, foram mostrados fatos e imagens de espectáculos não só do TEP como das principais companhias com quem colaborou, nomeadamente a Seiva Trupe, a Comuna, a Barraca, o Teatro da Cornucópia, o Teatro da Malaposta, o Teatro Maria Vitória e o Sport Operário Marinhense. Na ocasião foi publicada uma brochura, que percorre o itinerário teatral de Joaquina Garcia.

 

OS 90 ANOS DE PAPINIANO CARLOS

Papiniano Carlos completou 90 anos no dia 9 de Novembro de 2008. A sua vida e a sua obra têm sido uma referência na Cultura e na Cidadania do nosso País. Espectador atento do percurso do Teatro Experimental do Porto integrou os nossos Corpos Gerentes nos anos sessenta. Pelo seu exemplo e pelo contributo que nos deu, o Círculo de Cultura Teatral / Teatro Experimental do Porto decidiu associar-se à homenagem que lhe foi prestada precisamente no dia 9 de Novembro, pelas 17H00M, no Ateneu Comercial do Porto, dia de aniversário.

Divulgamos em seguida, o convite que foi feito para esta homenagem e a comissão promotora

 

 

 

 

 

Somos a decana das companhias profissionais do Teatro Português e a que maior longevidade atingiu em Portugal. Estreámos o primeiro espectáculo em 1953 e prosseguimos o nosso historial, com altos e baixos, mas, com segurança. Estivemos no Porto até Março de 1999 e estamos em Vila Nova de Gaia desde essa data. Com António Pedro, o nosso primeiro director artístico, mudámos o modo de fazer o teatro em Portugal, operando uma revolução estética, com a introdução da encenação moderna. A António Pedro seguiram-se figuras marcantes do teatro, das artes plásticas, da música, da literatura, do cinema, do pensamento, que moldaram o Teatro Experimental do Porto e a associação que o dirige, o Círculo de Cultura Teatral.

 

 

 

 

DOCUMENTOS HISTÓRICOS

Gradualmente o CCT/TEP vai inserir neste portal documentos históricos fundamentais não só para a compreensão do evoluir do TEP, como do próprio Teatro e da Cultura em Portugal, nos últimos sessenta anos.

Começamos por integrar, a Acta da Fundação, da qual falta a última página de assinaturas, perdida no tempo, mas, precisamente por isso, indicamos os nomes dos sócios fundadores (50) primeiros sócios efectivos (27) e primeiros sócios colaboradores (14). Esta Acta foi assinada em 1 de Fevereiro de 1951, na Assembleia Geral, realizada na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, e que foi presidida pelo Dr. Edgar Carneiro.

Na Acta número 7, da primeira Direcção do CCT, consta a decisão de contratar António Pedro.

A fotografia e nota inserida no “Jornal de Notícias”, dando conta dos ensaio de “Ti Coragem”, de Brecht, constata um facto importante – a peça esteve efectivamente em ensaios, mas foi proibida pela Censura.

Na carta ao Ministro das Corporações, é pedida a passagem ao estatuto profissional da companhia e do seu elenco.

O símbolo alternativo, concebido pelo artista plástico, Francisco Relógio, em 1965, não foi assumido – o símbolo do TEP já era, como continua a ser, o de Augusto Gomes, inserido na abertura deste portal. Mas, é um óptimo símbolo, por diversas vezes utilizado.

Seguem-se outros documentos históricos, com destaque para os casos “Ruggero Jacobbi” e “A Casa de Bernarda Alba.”

Por último, a resolução do contrato do Teatro António Pedro, em 1980, que levou ao abandono do nosso Teatro (entre 1956 e 1980), um dos momentos mais polémicos do nosso historial.

 

 

 

AS PUBLICAÇÕES DO TEP

Embora de uma forma irregular, o CCT/TEP publicou várias das peças levadas à cena (sobretudo nos anos cinquenta e inícios dos anos sessenta, ainda com António Pedro). Foram, igualmente, publicados catálogos de exposições e um ou outro acto paralelo. Algumas monografias tiveram, também, edição nossa. Aceda às páginas de capa das principais, e se encontrar alguma num alfarrabista, encontrou uma raridade.

 

 

MOVIMENTO DE ESPECTADORES

Neste espaço vão ser disponibilizados gráficos e mapas sobre o evoluir dos espectáculos do TEP, o seu número de representações e de espectadores.

De alguns anos do passado, será extremamente difícil dar elementos por não termos dados disponíveis nos nossos arquivos, mas doações que nos têm sido feitas por pessoas que ajudaram a construir o TEP, têm sido preciosas para os estudos desenvolvidos. Aos poucos, após conferência rigorosa, iremos disponibilizar o máximo de informação possível.

Começamos pelos gráficos que se seguem e que indicam o número de representações e espectadores, em Vila Nova de Gaia, entre os anos de 1999 e 2007.

 

Movimento de Espectadores

Número de Espectáculos

A ACTUALIDADE DO TEP

 

V Oficinas de Teatro – Acções de Formação

do Teatro Experimental do Porto

 

_

(Fotografias da aula de Expressão Corporal e Exercício Prático Final das IV Oficinas de Teatro, realizadas em 2009)

 

As V Oficinas de Teatro - Acções de Formação, do TEP vão realizar-se entre 09 de Março e 13 de Junho de 2010, com inscrições até 04 de Março de 2010. As normas e boletins de inscrição estão nesta página. Destinam-se apenas a associados do CCT/TEP, embora se aceitem inscrições para novos sócios que só assim as poderão frequentar, pagando previamente a quota anual de 30,00 euros, mais 2,50 euros para o cartão. Para a frequência das mesmas os inscritos pagarão uma quota suplementar de 150,00 euros.

As acções de formação decorrerão em dois períodos, e em horário pós-laboral. Terão apenas o módulo de Interpretação , com as disciplinas de Interpretação, Expressão Vocal, Expressão Corporal, Caracterização e História do Teatro, e culminarão com a participação dos formandos no 219º espectáculo do TEP, “O Morgado de Fafe Amoroso”, de Camilo Castelo Branco, com encenação de Susana Sá.

A primeira fase decorrerá entre 09 de Março e 30 de Abril de 2010, com aulas teóricas e práticas em três dias por semana, entre as 21H00M e as 24H00M. A segunda fase, a partir de 05 de Maio, prevê a integração dos formandos nos ensaios finais nocturnos do espectáculo mencionado, participando depois nas representações, onde desempenharão os pequenos papéis e a figuração. As representações ocorrerão com estreia a 13 de Maio, prosseguindo a carreira até 13 de Junho de 2010, de quarta-feira a sábado, às 21H45M, e, ao domingo, às 16H00M, no Auditório Municipal de Gaia.

 

clicar para obter "PROPOSTA DE ADMISSÃO E BOLETIM DE INSCRIÇÃO"

 

A - “AS ESPERTEZAS DE FIGARO ”

Entre 13 de Novembro e 13 de Dezembro de 2009, o Teatro Experimental do Porto tem em cena, no Auditório Municipal de Gaia, “As Espertezas de Fígaro”, adaptação e encenação de Norberto Barroca, a partir de “O Barbeiro de Sevilha”, de Beaumarchais e da música de Rossini.

_

As representações decorrem às quartas, quintas e sextas-feiras, às 10H30M e às 14H30M, e, aos sábados e domingos, às 16H00M, estando o espectáculo classificado para maiores de 6 anos.

N.B. As representações entre quarta e sexta-feira são para escolas e grupos, embora abertas ao público em geral. Poderão não se realizar, se não existirem prévias marcações.

_

Em seguida, divulgamos alguns excertos da brochura-programa de “As Espertezas de Fígaro”

------> clicar para abrir a brochura de "As Espertezas de Fígaro"

 

B - A PROGRAMAÇÃO DO TEP EM 2009

O ano de 2009 foi iniciado pela nossa companhia com a reposição de “Felizmente Há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro, e “Os Maias – Crónica Social Romântica”, adaptação de Norberto Barroca a partir de episódios do romance de Eça de Queirós. Estas duas acções inseriram-se num esforço de apoio aos programas curriculares do Ensino e apenas apresentámos os dois espectáculos em Vila Nova de Gaia, nos locais mencionados, de molde a darmos resposta mais eficaz às escolas de todo o País.  

Seguiu-se “Nova Gaia D'Ouro”, de Norberto Barroca e Manuel Dias, com encenação do primeiro, uma homenagem a Vila Nova de Gaia nos dez anos da transferência da nossa actividade para este concelho, acompanhada por uma exposição retrospectiva deste período do nosso historial; e, “Pares e Ímpares”, de José Luis Alonso de Santos, com encenação de Susana Sá.

Neste momento, temos em cena, igualmente no Auditório Municipal de Gaia, “AS ESPERTEZAS DE FÍGARO” , adaptação de “O Barbeiro de Sevilha” para a infância e juventude concebida por Norberto Barroca, também encenador do espectáculo. “As Espertezas de Fígaro” estará em cena até 13 de Dezembro, às quartas, quintas e sextas-feiras, em duas representações diárias, às 10H30M e 14H30M, e aos sábados e domingos às 16H00M.

 

C - 100 ANOS DE ANTÓNIO PEDRO

9 de Dezembro de 2009 a 9 de Dezembro de 2010

_

Maqueta do painel de azulejos concebido por António Pedro para o Teatro de Bolso, do TEP, e que integrarão o futuro Museu de Teatro António Pedro

António Pedro foi uma das mais multifacetadas personalidades da Cultura Portuguesa no século XX e faria 100 anos, no dia 9 de Dezembro de 2009. Com inúmeras comemorações previstas a nível nacional, por entidades públicas e privadas, o Teatro Experimental do Porto, a entidade à qual António Pedro mais esteve ligado e a partir da qual fez uma revolução estética no Teatro Português, onde introduziu a encenação moderna, vai anunciar brevemente a programação para um ciclo de comemorações que durará um ano e que contemplará espectáculos, leituras teatralizadas, exposições, conferências, lançamento de livros e outros actos culturais.

Vínhamos defendendo que a melhor homenagem a António Pedro seria a inauguração, a tempo da efeméride, do Museu de Teatro António Pedro, em Vila Nova de Gaia, onde pudesse ser disponibilizado não só o património do CCT/TEP, como várias doações previstas e relacionadas com o nosso primeiro director artístico, e que, de uma forma organizada, fosse mostrado ao público em permanência. Neste momento, temos consciência de que tal não poderá acontecer para o início das comemorações, mas ainda estamos confiantes na sua concretização até ao final das comemorações.

A disponibilidade de Luis Filipe Menezes e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia para a sua concretização têm sido constantes, desde 1999, data da passagem da nossa sede para Vila Nova de Gaia, estando o Museu consagrado no protocolo estabelecido. Durante estes anos tem o CCT/TEP procurado apoios alternativos e complementares para o mesmo, tendo encontrado parceiros privados para a sua manutenção e desenvolvimento do serviço educativo. Mas, infelizmente, para a transformação do espaço disponibilizado pelo Município, torna-se importante a participação do Ministério da Cultura. No mandato da anterior Ministra, Isabel Pires de Lima, as negociações com o seu Secretário de Estado, Mário Vieira de Carvalho, estiveram bem encaminhadas, tendo sido disponibilizada a vontade do Ministério não só numa parceria de acesso a programas comunitários, como em quantificar uma verba específica no Orçamento do Ministério para 2009, para o futuro Museu. Com a substituição da Ministra, tudo ficou paralisado e, obviamente, não houve qualquer verba inserida no Orçamento do Ministério.

Entretanto, o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em reunião efectuada no passado dia 14 de Abril, deu-nos novas garantias de que o projecto vai avançar, ainda este ano, com o Protocolo a ser assinado muito em breve, e o local será um espaço situado na Calçada da Serra, muito perto do Jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia. O edifício previsto albergará o Museu de Teatro António Pedro.

Sem o Museu, o início das comemorações do Centenário de António Pedro pelo TEP estará necessariamente comprometido nos desejos iniciais. Claro que vamos relembrar a data, mas é muito triste que a instituição à qual mais esteve ligado, não esteja na vanguarda das celebrações.

Em breve, vamos ter melhores noticias...

 

D – PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2010

REPOSIÇÃO DE “FELIZMENTE HÁ LUAR!”, DE LUÍS DE STTAU MONTEIRO E ESTREIA DE “FREI LUÍS DE SOUSA”, DE ALMEIDA GARRETT

No primeiro trimestre de 2010, teremos em cena:

“Felizmente Há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro (em 10º ano consecutivo) com encenação de Norberto Barroca, no Auditório do Centro Cultural e Social de Olival, Vila Nova de Gaia, de 8 de Fevereiro a 19 de Março de 2010, de segunda a sexta-feira, em duas representações diárias, às 10H30M e às 15H00M.

“Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett (em estreia), com encenação de Susana Sá, no Auditório Municipal de Gaia, de 11 de Fevereiro a 28 de Março de 2010, às quartas, quintas e sextas-feiras, em duas representações diárias, às 10H00M e às 15H00M, aos sábados, às 21H45M e aos domingos, às 16H00M.

 

E - Programação Já Cumprida em 2009

Saíram de Cena

2009

“FELIZMENTE HÁ LUAR!”

E

“OS MAIAS – CRÓNICA SOCIAL ROMÂNTICA”

Pelo 9º ano consecutivo, “FELIZMENTE HÁ LUAR!”, de Luís de Sttau Monteiro, com encenação de Norberto Barroca, foi apresentado no Auditório do Centro Cultural e Social de Olival, Vila Nova de Gaia, entre 9 de Fevereiro e 23 de Março de 2009, de segunda a sexta-feira, em duas representações diárias, às 10H30M e às 15H00M, e no dia 23 de Março , às 21H30M

_

Com representações abertas ao público em geral, teve incidência muito particular sobre as escolas secundárias, profissionais e colégios.

 

TOTAL 153.175

TOTAL 437  

Entretanto, “OS MAIAS – CRÔNICA SOCIAL ROMÂNTICA” , adaptação de Norberto Barroca a partir de episódios do romance de Eça de Queirós, foi apresentado no Auditório Municipal de Gaia entre 11 de Fevereiro e 28 de Março de 2009, às segundas-feiras, às 15H00, às quartas e quintas-feiras, às 10H00M e às 15H00M, às sextas-feiras, às 10H00M e às 21H45M, e, aos sábados, às 21H45M.

_

TOTAL 57.989

TOTAL 237

 

“NOVA GAIA D'OURO”

Entre 7 de Maio e 7 de Junho de 2009, o Teatro Experimental do Porto teve em cena, no Auditório Municipal de Gaia, “NOVA GAIA D'OURO”, de Norberto Barroca e Manuel Dias, com encenação de Norberto Barroca.

Homenagem a Vila Nova de Gaia, nestes dez anos que o TEP já viveu neste concelho, após 46 anos na cidade do Porto, este espectáculo e a exposição “TEP – 10 anos em Gaia” (entre 30 de Abril e 17 de Maio, no foyer do Auditório Municipal de Gaia), foram celebrações de uma mesma efeméride.

_

 

Em seguida, alguns excertos da brochura-programa do espectáculo “Nova Gaia D'Ouro”:

EM DEZ ANOS, GANHÁMOS GAIA

Estamos há dez anos em Vila Nova de Gaia, um passo essencial para a sobrevivência, no início; um rumo certo para continuar a procurar a utopia, nestes últimos anos. Gaia, a “de nome e renome” – como lhe chamou Diogo de Macedo, o amigo de António Pedro que lhe perpetuou a imagem no desenho e no bronze – e que para o TEP se transformou, para além da sobrevivência, na garantia e sustentação de um projecto com futuro.

Estamos em Vila Nova de Gaia, sentimo-nos de Gaia. Nascemos no Porto, criámo-nos no Porto, onde nos afirmámos mas também padecemos, reganhámos a energia e a saúde em Gaia, reafirmando-nos, e vamos prosseguir novos futuros de afirmação.

Nestes dez anos de Gaia, temos tido o apoio inequívoco do Município, seja através da Câmara Municipal, seja através da empresa municipal Gaianima, mas, também, de outros departamentos municipais; e, felizmente, temos tido o apoio da população, que nos tem brindado com a sua participação nos nossos espectáculos e actos paralelos. Acrescentámos, igualmente, uma forte presença de públicos de outras proveniências que nos têm visitado em Gaia. Afirmamos com orgulho que tivemos, nestes dez anos, espectadores que ultrapassam largamente a maioria esmagadora do Teatro Português, não encontrando paralelo nas companhias mais apoiadas pelo Ministério da Cultura no nosso País.

Ao longo destes dez anos, apresentámos uma programação, apesar das enormes dificuldades, sobretudo financeiras, que não nos desmerece perante as companhias mais apoiadas neste País, pela tutela.

Recriámos a vida de uma companhia histórica do Teatro Português, ganhámos Gaia e populações de outros concelhos das regiões que nos circundam e que têm afluído aos nossos espectáculos. Vencemos, também, através das excursões que, de todo o País, têm vindo a Gaia ver os nossos espectáculos.

Sabemos, desde sempre, que estamos a usar dinheiros públicos, provenientes dos apoios, por isso temos procurado ser criteriosos na sua aplicação, alargando as receitas próprias. Mesmo, neste último caso, os resultados de bilheteira e outras receitas próprias, que eram residuais há dez anos, hoje correspondem a quase 40% de todas as receitas obtidas, outro dado para o qual não encontramos paralelo no conjunto do Teatro Português profissional. E, gerimos um apoio autárquico fundamental com as mesmas verbas desde 2003.

Mas, temos vindo a confirmar que ganhando esta terra, apenas contámos com apoios residuais e pontuais do Ministério da Cultura nos últimos dez anos – 10,10% em média entre 2003 e 2008, inclusive, no total das receitas obtidas. E, somos uma companhia profissional de dimensão nacional, que deveria ter como principal apoio o do Governo. Curiosamente, temos sido penalizados, quer pelos Institutos ou Direcções-Gerais que têm tutelado esta área, quer por júris, desconhecedores do nosso trabalho e do que se faz fora do eixo Lisboa e Vale do Tejo. Os tribunais têm-nos dado razão, obrigando a anular concursos e, num dos casos, obrigando o Ministério da Cultura a indemnizar-nos, dadas as gravíssimas irregularidades cometidas. Mas, a justiça que temos, prevê a possibilidade de o Estado apresentar recursos e réplicas sucessivos, que vão atrasando o desfecho final!... Já fomos ao ponto de constatar uma réplica do Ministério da Cultura perante o Tribunal Central Administrativo, em que reconhecendo o direito que temos à indemnização, alegou não ter verba orçamentada para o efeito!... O anterior Secretário de Estado da Cultura, Prof. Mário Vieira de Carvalho, em conferência de imprensa realizada nas nossas instalações, após uma reunião, disse à comunicação social que o TEP tinha sido vítima de gravíssimas irregularidades e avaliado por um júri incompetente, mas, mesmo assim, nada foi alterado.

Apesar do que sucintamente ficou escrito, e perante a nossa candidatura a um apoio quadrienal do Ministério da Cultura (2009-2012), vimo-nos, uma vez mais, afastado desses apoios, com a proposta do júri, homologada pela Direcção-Geral das Artes, a atribuir-nos o valor zero para o quadriénio!... Não somos lobistas, o que parece começar a funcionar mal junto da governação. Mas, desta vez, vão mais longe, permitindo-se dar-nos conselhos para reverter a nossa situação, deixando no ar a hipótese de se não alteramos o que é dito, deixarmos de ser apoiados no futuro. Será que compete a um júri, referendado pela Direcção-Geral das Artes, dar conselhos aos candidatos? Será que a constitucionalidade e legalidade deste acto não deve ser posta em causa?… Optámos por não recorrer aos tribunais uma vez mais, cansados da morosidade da justiça (o recurso mais antigo para o qual esperamos o desfecho é de 2001).

Mas, é curioso transcrever o tal conselho, homologado pelo Director-Geral das Artes, com que termina o parecer do júri deste ano:

“A Comissão de Apreciação reconhece o esforço e a dedicação do TEP, mas na perspectiva de regresso a um apoio sustentado aconselha a companhia a um exercício sério de reflexão artística e programática, bem como à qualificação e renovação da sua equipa artística. Pelas razões expostas, a comissão de apreciação propõe a não atribuição de apoio”. Na defesa de um modelo estético, diferente do nosso, não aceitando a diversidade consagrada constitucionalmente, foram longe demais… Se apenas dissessem que o projecto era mau, independentemente da reacção que poderíamos ter em seguida em função dos pressupostos deduzidos, ainda seria aceitável embora difícil, dado tratar-se de pessoas, que conhecemos, e não viram nenhum espectáculo do TEP nos últimos anos.

Ora a única entidade que poderá decidir essas alterações é a Direcção do CCT/TEP e que o fará no momento que considerar oportuno, independentemente das dicas de “conselheiros” a quem as não pediu…

Mas, depois desta divagação, de revolta mas também de mágoa, regresso aos dez anos do TEP em Gaia.

Cumpridos dez anos sobre a assinatura do Protocolo com a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que transferiu a actividade do CCT/TEP para este concelho, e celebrámos no passado dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro, no Auditório Municipal de Gaia, dois actos importantes são mostrados ao público: por um lado, a exposição “TEP – 10 Anos em Gaia”, que percorre o itinerário da nossa companhia nas terras do Rei Ramiro, e, pode ser visitada, no foyer do Auditório Municipal de Gaia, até 17 de Maio; por outro lado, o 215º espectáculo do TEP, “Nova Gaia d'Ouro”, que ora estreamos. São dois momentos de lembrança do nosso trabalho recente e de homenagem a Vila Nova de Gaia, uma terra que também já é nossa.

“Nova Gaia d'Ouro” foi construído por Norberto Barroca, director artístico do TEP, a partir dos textos que ele próprio e Manuel Dias (entretanto desaparecido e a quem prestamos homenagem) escreveram em 2001 para o espectáculo “Gaia D'Ouro”, com música original de Paulino Garcia. Nesse ano, o espectáculo teve enorme êxito e várias vezes estivemos à beira da sua reposição, dados os pedidos recebidos. Gaia é-nos mostrada através da sua história, dos seus episódios mais marcantes, das gentes que melhor a definiram, dos seus costumes, da sua vivência, num espectáculo musical de luz, cor e som, que certamente perdurará. Esta nova versão altera muitas coisas sobre a primeira: texto, música, situações descritas, elenco… mas, mantém a graça de um espectáculo divertido e essencial que é, igualmente, um agradecimento ao concelho que nos recebeu.

Para o Norberto Barroca, uma vez mais, o nosso agradecimento, que certamente merecerá ainda mais aplausos da população gaiense e da que nos visitará para ver este espectáculo. Para o Mário Dias Garcia e todos os criativos (Paulino Garcia, Ruben Marks, Eduardo Brandão) o nosso aplauso agradecido por mais este trabalho que os dignifica e à instituição. Para o Manuel Dias, que já se libertou da lei da vida, a nossa homenagem maior pela memória que deixou em todos nós, no público e na cultura portuguesa. Para os actores que se estreiam nesta versão (Ana Anjos, Carolina Paiva, Fernanda Paulo, Luís Trigo, João Leiria, Matilde Nicolau e Ricardo Barbosa), o nosso agradecimento pela forma empenhada com que se têm envolvido. Para o actor que se estreia nesta versão, mas que é uma figura permanente do TEP desde 2004, o José Dias, o aplauso de quem conhece a sua generosidade, trabalho e criatividade de sempre. Para os actores que repetem a experiência nesta segunda versão (Alice Vasconcelos, Aquiles Dias, Oliveira Alves) a certeza de que estarão ainda melhor do que na primeira vez. Para os técnicos, administrativos e produção (Eugénia Cunha, Ana Santos, Cândida Ribeiro e Pedro Amendoeira), um agradecimento pela participação sempre empenhada. À Joaquina Garcia, que criou o guarda-roupa de 2001 e ainda veio dar uma mãozinha nesta nova versão, a nossa homenagem. E ao Vidal Valente, sempre.

Ao Manuel Filipe de Sousa, Director do A.M.G. e a toda a sua equipa, que na sua esmagadora maioria já participou na versão de 2001, o nosso agradecimento de sempre.

Vila Nova de Gaia são também todas estas pessoas citadas nos dois últimos parágrafos, em conjunto apresentadas ao público, como participantes desta aventura teatral.

Ao Município de Vila Nova de Gaia, e, muito particularmente ao seu Presidente da Câmara, Luís Filipe Menezes, nosso Sócio Honorário, o nosso aplauso pelo apoio, que em breve será reforçado com o início das obras do futuro Museu de Teatro António Pedro.

À empresa municipal Gaianima, aos seus administradores, directores e colaboradores, o nosso agradecimento pelo acompanhamento permanente.

Para a memória de António Pedro, a nossa referência mais significativa, a convicção de que o seu centenário vai ter uma importante intervenção do seu TEP.

Para o público, o nosso agradecimento antecipado maior, pois, como dizia António Pedro, “sem público, não há teatro”

Por Vila Nova de Gaia! Pelo Público! Pelo Teatro! Pelo TEP! Pelo Futuro!

JÚLIO GAGO - Presidente do CCT/TEP

 

NOVA GAIA D'OURO

Texto de apresentação da estreia de GAIA D'OURO , em 2001

O espectáculo é uma viagem à história e à memória de Gaia, com uma sucessão de quadros cujo tema de ligação é a vida da cidade e do concelho. Fala-se de história e lendas, tradições e costumes. Destacam-se alguns acontecimentos relevantes da história do Concelho e também figuras que estão ligadas à sua vida e às suas gentes.

Desde a ocupação romana ao domínio árabe, centrado na figura lendária do rei Alboazar e das lutas com o também lendário rei Ramiro, que é figura central do brazão da cidade; passando por D. Afonso III que deu Carta de Foral à “vila da margem esquerda” do rio Douro, a que chamou “Mea Villa de Gaya” (1255); até ao rei D. Diniz e a Rainha D. Isabel, que concederam novo foral (1288). De D. João I e a crise de 1385, com referência a Álvaro Anes de Cernache, alferes da Bandeira da “Ala dos Namorados” na Batalha de Aljubarrota e 1º Senhor de Gaia (1385). Desde o foral do rei D. Manuel I, que faz distinção entre Vila de Gaia e Vila Nova (1518) até à fusão das duas vilas, no século XIX, com a restauração do Concelho (1834).

Destacam-se as figuras de grandes românticos ligados a Gaia, como Almeida Garrett que, tendo nascido no Porto, viveu e se criou em Gaia; de Camilo Castelo Branco e da sua relação com Fanny Owen que vivia em Vilar do Paraíso; de Eça de Queirós que na Granja iniciou romance de amor com Emília, filha dos Condes de Resende. Fala-se do desastre da Ponte das Barcas, das lutas liberais, do período de cerco do Porto e dos heróicos “Polacos da Serra” que defenderam a Serra do Pilar, último baluarte do Liberalismo. Da vitória liberal saíram as reformas que levaram à restituição do Município a Gaia e ao agrupamento das freguesias que constituem o grande Concelho gaiense.

 

Destacaremos algumas das actividades da gente do Concelho, como a dos vinhateiros e comerciantes do “Vinho do Porto”; o trabalho ligado ao Rio Duro com barcos rabelos, barqueiras de Avintes e pescadores da Afurada, dos moleiros, dos lavradores, dos artífices que trabalham a madeira, o ferro, a pedra e o barro. Desse barro “d'ouro” donde saíram as obras de arte dos grandes escultores de Gaia que também serão recordados.

Mas falaremos também de romarias e festas populares onde se manifesta a cultura popular. Porque é no povo que a cultura tem as suas raízes e é na arte popular que se manifesta a mais pura cultura. É na cultura popular que reside a sabedoria dos povos. A minha homenagem vai para os anónimos trabalhadores, artistas da mais pura essência e sentimento.

Muito ficará por contar, muitos dos que ajudaram ao progresso desta terra e a engrandeceram não poderão ser mencionados. Mas o seu decisivo contributo deu valiosos frutos que estão à vista no desenvolvimento da Cidade. Para eles é também a nossa homenagem. E também para o rio DOURO que também faz a história de GAIA. Os dois dão o nome ao espectáculo GAIA D'OURO .

Norberto Barroca, Director Artístico

 

NOVA GAIA D'OURO

De 2001 para cá, muita coisa se passou. Continuamos em Gaia cumprindo um projecto a que nos propusemos e que continuamos. Desde o nosso primeiro espectáculo em Gaia, constituido por Lenda de Gaia , segundo o Romanceiro de Almeida Garrett, estreámos mais 37 peças de autores nacionais e estrangeiros, clássicos e modernos, para adultos e para crianças; fizemos 15 reposições de espectáculos, sobretudo destinados a um público estudante que tem vindo ver o TEP de todos os pontos do país.

Com a Lenda de Gaia tentámos uma aproximação às instituições com actividades culturais de Gaia que, nesse espectáculo, connosco colaboraram. Nas minhas propostas tive sempre a intenção de aproximar os espectáculos a esta cidade, representando algumas vezes em colectividades para um público que sempre bem nos acolhei. Sem ele não poderia ter havido Teatro. Pela minha parte, o meu agradecimento pela forma como me têm acompanhado e acarinhado. É para as gentes de Gaia que vai a minha primeira homenagem. Gaia D'Ouro foi, em 2001, um espectáculo que homenageava a cidade e as suas freguesias. Hoje, esta Nova Gaia D'Ouro continua a ser o meu testemunho de gratidão e de admiração por esta cidade, por quem a dirige, por quem nela trabalha e por quem nela vive. Na primeira versão do espectáculo tive como companheiro de autoria o Manuel Dias que muito contribuiu para o sentido humorístico e crítico do texto. É dele o melhor do texto desta peça e para ele vai a minha mais sincera e amiga homenagem, lá onde se encontra.

Os meus agradecimentos estendem-se a todos os colaboradores dos espectáculos que encenei, criadores artísticos (o Mário, o Paulino, o Ruben, o Brandão), técnicos e administrativos do TEP e do Auditório Municipal. E, muito carinhosamente, vão para os actores que comigo têm trabalhado. Sem eles também não acontecia Teatro e, neste período, foram 103 os actores que comigo trabalharam. Alguns jovens vieram por minha escolha para o TEP , e comigo se estrearam e me deram força e me fizeram rejuvenescer pelo que com eles aprendi.

Tenho dedicado a minha vida ao Teatro, com 50 anos de Teatro profissional e mais 20 a representar em casa e nas escolas. Os últimos 11 anos da minha vida foram dados ao TEP. Tenho consciência que fiz o melhor que sabia e que podia dentro das condições, algumas bem difíceis, que me foram oferecidas. Fi-lo com profissionalismo, trabalho, dedicação e, sobretudo, muito amor. Obrigado a todos os que me têm acompanhado neste percurso, colaboradores, artista e público. Do amigo Norberto Barroca.

 

GAIA D'OURO - HISTÓRIAS E LENDAS DE GAIA

I PARTE – TEMPO DE FRADES E MOSTEIROS

1º CICLO – DA FUNDAÇÃO AO FORAL

Cena 1 - “Cale Romana” (Ocupação romana)

Cena 2 - Lenda de Gaia (Ocupação árabe)

Cena 3 - Mosteiros Colunáveis (Mosteiro de Grijó e Mosteiro de Crestuma – séc. X)

Cena 4 - Pelas Barbas de S. Pedro (Mosteiro de Pedroso – séc.XI)

Cena 5 - Cruzados no Rio Douro (Fundação da Nacionalidade – séc. XII)

Cena 6 - «Mea Villa de Gaia» (Foral de Afonso III – 1255)

2º CICLO – GAIA, “ A DE NOME E DE RENOME”

Cena 7 -”Vila Nova d'El Rey” (Foral de D. Dinis – séc. XIII)

Cena 8 - Refúgio de Freiras (Convento de Corpus Christi – séc. XIV)

Cena 9 - Morangos de Canidelo (D. Pedro e Inês de Castro – séc. XIV)

Cena 10 - A Procissão das Ladaínhas - (Revolta dos Mesteirais – séc.XIV)

Cena 11 - Ala dos Namorados (Batalha de Aljubarrota – séc. XIV)

Cena 12 - Um Menino no Convento (Procissão das Cruzes – séc. XV)

Cena 13 - Siga a Rusga! (Foral de D. Manuel – séc. XVI)

3º CICLO – VINHO FINO E RIO DOURO

Cena 14 - Ventos de Espanha (Ocupação Filipina – séculos XVI / XVII)

Cena 15 - Vinho Fino e Melancias (Mosteiro da Serra do Pilar – séculos XVII/XVIII)

Cena 16- Chegaram os Ingleses (Comércio do vinho) - séculos XVII e XVIII - “Sangue e Vinho”

II PARTE – TEMPO DE LIBERDADE

4º CICLO – A LIBERDADE

Cena 17 - “O Santo é Nosso” (Festa de S. Gonçalo)

Cena 18 - “Nasci no Porto, mas Criei-me em Gaia” (Almeida Garret – início séc.XIX)

Cena 19 - Luz e Sombra – (Iluminação Pública e Cadeia – séc. XIX)

Cena 20 - “É uma Só a Liberdade!” (O Cerco do Porto e os Polacos da Serra -1832/1834)

Cena 21 - Concelho Novo, Vida Nova! (Reforma do Concelho – Séc. XIX)

5º CICLO – ROMÂNTICOS DE GAIA

Cena 22 - Amores de Perdição (Camilo Castelo Branco e a Romaria do Senhor da Pedra)

Cena 23 - O Menino Guilherminho (Júlio Dinis e “A Morgadinha dos Canaviais”–1868)

Cena 24 - O Rapto da Broa de Avintes (A Pedra da Audiência, 1742-1832)

Cena 25 - Casamentos na Granja (Pacto da Granja – 1876; Eça de Queirós – 1883-1888)

6º CICLO – “GENTE D'AQUI”

Cena 26 - Barro D'Ouro (Escultores de Gaia – séculos XIX e XX)

Cena 27 - Pescadores da Afurada (Naufrágio de 1892)

Cena 28 - No Cais de Gaia (2009)

Cena 29 - “Vamos ao Teatro!” (Teatro com Amor)

Cena 30 - Festa da Cultura do Povo - “Gaia D'Ouro” – (Final)

 

CIRCULO DE CULTURA TEATRAL

TEATRO EXPERIMENTAL DO PORTO

Apresentam o 215º Espectáculo

Texto NORBERTO BARROCA / MANUEL DIAS

Encenação NORBERTO BARROCA

Música e Direcção Musical PAULINO GARCIA

Cenário NORBERTO BARROCA / MÁRIO DIAS GARCIA

Figurinos MÁRIO DIAS GARCIA

Coreografia RUBEN MARKS

Desenho de Luz / Sonoplastia EDUARDO BRANDÃO

 

Intérpretes:

ALICE VASCONCELOS

ANA ANJOS

AQUILES DIAS

CAROLINA PAIVA

FERNANDA PAULO

JOÃO LEIRIA

JOSÉ DIAS

LUÍS TRIGO

MATILDE NICOLAU

OLIVEIRA ALVES

RICARDO BARBOSA

 

Assistente e Director de Cena JOSÉ DIAS

Mestra de Guarda-Roupa JOAQUINA GARCIA

Guarda Roupa CÂNDIDA RIBEIRO

Execução de Cenário AUDITÓRIO MUNICIPAL DE GAIA

Execução gráfica MULTITEMA

Operador de Luz JOÃO ABREU

Operador de Som PEDRO AMENDOEIRA

Maquinaria ALBERTO RIBEIRO e MANUEL NEVES

Efeitos Especiais de Pirotecnia JOSÉ DIAS

Apoio de Camarim SALOMÉ PINTO

 

Telões pintados:

Desenho de CESÁRIO AUGUSTO PINTO (1848)

Serigrafia do Pintor ANTÓNIO JOAQUIM (1999)

 

 

Programa e Cartaz NORBERTO BARROCA

Desenho Gráfico JOSÉ CARVALHO

Fotografias JOSÉ MARTINS

Gravura do Cartaz CESÁRIO AUGUSTO PINTO (1848)

Produtora Executiva EUGÉNIA CUNHA

Secretariado ANA SANTOS

Assessor de Direcção VIDAL VALENTE

Assistente de Limpeza LIBERDADE SILVA

 

Maiores de 12 anos

Estreia: 7 de Maio de 2009

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

 

INTÉRPRETES E PERSONAGENS

 

ALICE VASCONCELOS - Transtina pinioliz / Maria Mendes / Bruxa de -Gaia / Viúva Ferrerinha /

Romeira de S. Gonçalo / D. Aninhas / Mrs. Owen/ Condessa de Resende / Escarapinzeira de Pedroso

ANA ANJOS - Aldarica / Brites / Camponesa / Irmã Celeste / Taberneira de Viana /

Mrs. Croft / Mareante / Joaquina / Freira / Mariazinha / Menina F / Rita

Petinga / Vendedeira

AQUILES DIAS - Lusitano / Soldado / Bispo D. Gomado/ Domingos / Cónego/ Irmão

Agostinho / Bartolomeu Pancorbo / Romeiro de S. Gonçalo / Brernardo /

Lampianista / Padre Lucas / D. Pedro IV / Escrivão / Veraneante / Soares

dos Reis / Actor Amador / Tanoeiro

CAROLINA PAIVA - Zahara / Joana / Camponesa / Leonor Alvim / Irmã Cândida / Maria /

Vinhateira / S. Roque / Carolina / Morgadinha / Joana Marmota / Actriz

Amadora / Lavadeira

FERNANDA PAULO - Aia Moura / Abadessa Elvira / Mariana / Inês de Castro / Melancias /

Vinhateira / D. Marquinhas / Mary / Romeira do Senhor da Oedra / Padeira

de Avintes / Menina E / Turista / Padeira

JOÃO LEIRIA - Rei Ramiro / Cruzado _/ D. Diniz / Camponês / Alcaide Rodrigo Anes de

Sá / Gil / Irmão António / Melancias / Vinhateiro / Mareante / Garrett /

Bombeiro / José AugustoPinto de Magalhães / Manuel Quintino/ Eça de

Queirós / Zé Congro da Afurada / Pescador

JOSÉ DIAS - Mahamuti / Irmão Guterres / Cruzado / D. Afondo III / Camponês

Duarte / D. João I / John / Vinhateiro / Homem de S. Cristovão / Soldado

Álvaro / Camilo Castelo Branco / Réu / Banhidsta / Teixeira Lopes /

Estraga / Feirante e Fogueteiro

LUÍS TRIGO - Almeara / Irmão Soares / Escrivão / Camponês / Cónego Jovem /

Martim / Jack / Mr. Kopke / Porta Estandarte / Simão / Carcereiro /

D. Miguel / Provredor do Concelho / Brasileiro Seabra / Frutuoso Aires /

Fininho / Entalhador

MATILDE NICOLAU - Gaia / Rainha Isabel / Camponesa / Irmã Angélica / Mrs. Kopke / Mãe

de Garrett / Mtrs, Proctor / Fanny Owen / Emília de Resende / Actriz

Amadora / Lavradeira

OLIVEIRA ALVES - Caio Júlio / Ederónio Alvites / Lourenço / D. Afonso IV / D. Manuel /

Irmão Brás / Bekleza de Andrade / Pai de Garrett / Sr. Alfredo / Coronel

Owen / Juiz / Diogo de Macedo / Actor Amador / Oleiro

RICARDO BARBOSA - Rei Alboazar / Afonso Henriques / Vicente / D. Pedro / Álvaro de

Cernache / Yomás / Frade Franciscano / Mister Croft / Homem de S.

Gonçalo / Soldado Manuel / Romeiro do Senhor dsa Pedra / Manuel,

Conde de Resende / Tóino Taínha / Actor Amador / Moleiro

GAIA A DE NOME E RENOME

“Mea Villa de Gaya”, como lhe chamou, no foral decretado cêrca de 1300, o Senhor Rei D. Afonso Terceiro, a Portus Cale remota, tem baixo-relevados, no seu brasão partido a prumo e com as armas portuguesas no meio, dois castelos simbólicos e vetustos. Um deles, desenhado sôbre campo púrpura – sangue de batalha – é uma desproporcionada e abobadada fortaleza, com zimbório coroado de lanternim ou corujeu fradesco, à imitação do do Mosteiro da Serra do Pilar, êsse baluarte lindamente acocorutado no antigo Montado de Quebrantões, que enfrenta o Pôrto e que dizem temível de firmeza, com mais de quinze palmos de espessura em paredes e cantarias. Foi de encontro a estas que se esboroaram, aniquiladas, as granadas fratricidas das tropas do Rei-Soldado – o rei democrata que nos impôs a Constituição em habilidosa conveniência própria, espécie de manual prático para uso do Limoeiro político – e as do seu bolieiro irmão, fidalgote garboso a quem a Mãe trocou a paternidade e Sequeira elegantizou com génio e espadim, o Senhor D. Miguel das fôrcas, das porradas nocturnas, das esperas de touros, dos bailes de Queluz e dos calotes retumbantes, o rei pechincha que, com mêdo do Saldanha, mandou deitar ao rio o vinho que topou nesta vila, não fôsse por êle aquele se bater com mais ardor. O outro castelo heráldico, sôbre um campo de oiro – o rio Dorius – é encimado com a águia romana de vôo largo, insígnia significativa de ser esta terra um dos pontos do itinerário de Antonino Pio, do qual, para boa prova, não há ainda muitas décadas, foram levantadas as derradeiras lágeas da Estrada Romana, erradamente conhecida pelo povo como Estrada Moirisca, pois não era senão a Via militar, que, vinda de Aeminium (Coimbra), cortando Águeda e Grijó, e passando por Coimbrões em direcção ao rio. Logo na banda de além se continuava no rumo de Braga e daí sempre em diante. Mais o atesta o terem-se topado frequentemente, em pesquisas e escavações para os lados do Coteiro da Vela, de Avintes, dos Carvalhos e para as bandas de Vilar, modestas memórias de então, com variados objectos de argila – ânforas, lampadários, lucernas e ampulas – e de bronze – moedas de imperadores, facas, braceletes e coifas – assim como estelas funerárias e fragmentos de vidraria esmaltada, o que leva esta gente loquaz a dizer que “quem tem bôca vai a Roma” e “antes me quero com Brutus do que com um bruto”.

As tradições do burgo, porém, envaidecem os seus nativos com factos mais, que a pedra de armas, por estreiteza de tamanho, não conseguiu arquivar claramente. Junto à igreja de Mafamude – e é de apetite êste nome com seu gôsto moirisco – entre pomares verdejantes e águas espontâneas, há um sítio que guarda ainda o chamadoiro de Paço do rey, casa residencial que o povo diz ter sido das moiramas e outras versões asseguram ser desfeito Castro pré-romano. O que se sabe por alfarrábios antigos é que ali em Mafamede e em remotas épocas, se encontrou o apelido dêste reino, pois já nos tempos do Conde D. Henrique aquele fértil chão se chamava Portugal.

Mas a glória de ser esta vila a madrinha de guerra e o padrinho de baptismo de todo o país, além da honrosa razão de ter sido ela que com a chegada a seu pôrto, de uma armada de cruzados, determinou em parte o cêrco de Lisboa, em 1140, que aliás falhou, é nobremente ampliada com a histórica tradição – e esta o escudete de armas a confirma na sua legenda Nome e Renome – de ter êste burgo o apelido de Portucale Castrum, como lhe chamou um cronista cristão, que os nossos reis primeiros, descuidados na cegueira da conquista, usurparam, singelizaram e adaptaram ao novo pôrto que vai de Caminha até aos Algarves. Seja como fôr, está provado que, tomada ou dádiva generosa do seu herdado chamadoiro – Sedis Portucalensis – assim se empresta honra a esta terra. Por tal facto lhe foi concedida, por alvará régio da 1ª dinastia, a coroa do seu brasão, donde brota, façanhudo com luzente armadura e pluma no toucado, o busto de um Rei Ramiro, asturiano, zeloso de honra e de posse, tocando a buzina do desafio e voltado chistosamente para a banda de além-Douro.

DIOGO DE MACEDO, Gaia, a de Nome e Renome

Diogo de Macedo

 

Diogo de Macedo nasceu em Vila Nova de Gaia. Em 1902 matriculou-se na Academia Portuense de Belas Artes e participou na “II Exposição dos Modernistas”, na Sociedade de Belas Artes do Porto. Acabou o curso em 1911 e partiu para Paris, onde frequentou a Escola Nacional de Belas Artes. Voltou a Portugal em 1922 e participou na “Exposição 5 Independentes”. Foi-lhe atribuída a segunda medalha na Secção de Escultura pela Sociedade de Belas Artes. Em 1930 publica o seu primeiro livro e colabora em vários jornais com notas de arte.

 

 

------> clicar para abrir a brochura da "NOVA GAIA D'OURO"

 

“PARES E ÍMPARES ”

Entre 24 de Setembro e 18 de Outubro de 2009, o Teatro Experimental do Porto teve em cena, no Auditório Municipal de Gaia, “Pares e Ímpares” , de José Luis Alonso de Santos, com encenação de Susana Sá. Representações de quarta-feira a sábado, pelas 21H45M, e, ao domingo, às 16H00M.

_

Um novo encontro do TEP com a comédia espanhola contemporânea, revelando um autor, José Luis Alonso de Santos, que, pela primeira vez, é levado à cena por uma companhia profissional em Portugal.

_

Em seguida, divulgamos alguns excertos da brochura-programa do espectáculo “Pares e Ímpares”, excepto os que implicariam direitos autorais não assegurados:

 

 

CÍRCULO DE CULTURA TEATRAL

TEATRO EXPERIMENTAL DO PORTO

Apresentam o 216º Espectáculo

Texto JOSÉ LUÍS ALONSO DE SANTOS

Tradução NORBERTO BARROCA

Encenação SUSANA SÁ

Cenário LUÍS BAIÃO

Figurinos Susana Sá

Desenho de Luz / Sonoplastia Eduardo Brandão

Personagens e Intérpretes:

Nines ISABEL NUNES

Roberto JOSÉ DIAS

Frederico RUI SPRANGER

Vozes HELENA DIAS / SUSANA SÁ / TITO MACHADO

Execução de Guarda Roupa CÂNDIDA RIBEIRO

Execução do Cenário AUDITÓRIO MUNICIPAL DE GAIA

Operador de Luz JOÃO ABREU

Operador de Som PEDRO AMENDOEIRA

Maquinaria ALBERTO RIBEIRO e MANUEL NEVES

Cartaz NORBERTO BARROCA

(segundo ideia de SUSANA SÁ)

Desenho Gráfico JOSÉ CARVALHO

Caricaturas ONOFRE VARELA

Fotografias JOSÉ MARTINS

Programa NORBERTO BARROCA, com selecção de textos

De SUSANA SÁ E JÚLIO GAGO

Produtora Executiva EUGÉNIA CUNHA

Secretariado ANA SANTOS

Assessor de Direcção VIDAL VALENTE

Assistente de Limpeza LIBERDADE SILVA

Maiores de 16 anos

Estreia: 24 de Setembro de 2009

AUDITÓRIO MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA

 

REFLECTINDO SOBRE O PAPEL DA CULTURA

Júlio Gago

Estamos a viver um momento complexo, também no que concerne à Cultura. Provavelmente ainda mais complexo, por esta ser habitualmente uma parente pobre da política de qualquer Governo.

No momento em que José Luis Alonso de Santos levou à cena a sua primeira peça, por coincidência, no dia seguinte, morria Franco, o ditador espanhol que castrou a nossa vizinha Espanha, entre 1939 e 1975. Mas, a Espanha, que viu no seu seio uma das mais ferozes ditaduras, responsável por milhares de mortos durante a Guerra Civil, e, após esta, outros milhares de fuzilamentos, de prisões políticas e de partidas para o exílio, conseguiu um processo pacífico para a Democracia, com sequelas que se revelaram mais fáceis de resolver. Em Portugal, apesar de a mudança de regime ter sido feita com cravos, as sequelas têm-se revelado bem mais profundas, por motivos cuja análise prossegue nos diferentes campos do Pensamento. A maioria dos nossos políticos, que se assumem como democratas, defensores da liberdade e do pluralismo, estão numa profunda confusão ideológica e programática e com uma intervenção cívica confusionista e pouco clara, sendo verdade, que os nossos intelectuais não se têm mostrado eficazes num contributo indispensável. Vagueamos na confusão ideológica, nos partidos políticos e fora deles, assumindo bases programáticas imediatistas e que não defendem ideias e objectivos de uma intervenção cívica de qualidade.

O papel do Teatro, e de toda a Cultura, sempre teve, nos momentos cruciais da História, a determinante valorativa de ser crítico em relação ao apodrecimento da sociedade, ajudando-a na sua reflexão para a criação de um Mundo melhor. E, a cultura precisa de reganhar um sentido eficaz do subversivo que ajude a alterar este estado de coisas, fazendo sentir aos governantes o peso da sua força. Por outro lado, num contexto democrático, o papel do Estado, nos seus diferentes organismos, é o de apoiar a intervenção cultural, sem temer que ela o critique. E, quando falo em apoios, não destaco os chamados “subsídios” (forma aviltante e ignorante de identificar os apoios à Cultura, que é um serviço público), mas sim um apoio de criação de condições legislativas, que enquadrem juridicamente a valorização do fenómeno cultural. Por exemplo, no campo do Teatro, dos 15 países mais antigos da União Europeia, somos um dos dois únicos, onde ainda não existe uma Lei de Bases, que discipline coisas tão importantes como o estatuto do profissional e das companhias profissionais; uma legislação laboral e de assistência, que tenha em conta a precariedade de uma profissão, onde a maioria actua a recibos verdes; um ensino profissional e superior, em que seja percebida a especificidade desta intervenção, etc.

Todos estes assuntos são um problema de Cultura, algo que falta a muitos dos nossos governantes, sempre mais preocupados com o fogacho de uma medida imediatista, que possa dar votos, do que com uma definição clara dos objectivos a prazo de uma Nação moderna e democrática. A confusão vai mesmo ao ponto de confundir princípios ideológicos que dizem contestar, com uma actuação prática em que agem na base dos princípios que críticam. A título de exemplo, como se compreende que partidos que se dizem pluralistas e defensores da diversidade cultural e de que o Estado deverá ser um árbitro e não um interveniente activo no jogo, queiram chamar a si a responsabilidade da criação e programação, que compete aos criadores e aos programadores? Nesta situação, o Estado deixa de ter o papel regulador, que é o seu, e assume, ao nível dos totalitarismos mais radicais, o papel de Estado tutor, verdadeira aberração democrática. Senhores governantes, percebam que estão a entrar num contra-senso - esse não é o papel democrático do Estado. Uma outra chamada de atenção para uma ideia que percorre a nossa sociedade e que é das mais negativas para o fenómeno cultural - a de confundir o papel da cultura (e o da civilização, também), com o do lazer e da recriação. A Cultura tem um papel formativo e permanentemente crítico da própria sociedade, não tem o papel de ver na recriação e na ocupação dos tempos livres o objectivo para mudar, para melhor, a vida dos povos. Por isto, quando uma franja (pequeníssima, felizmente) da sociedade a vê como indústria, está antecipadamente a vê-la como um acto de lazer a rendibilizar com lucros, que prolonguem a intervenção da empresa. E, a Cultura, aquela que intervém criticamente na valorização dos povos é um investimento a longo-prazo de criadores e programadores.

Entretanto, o humor pode ser (e é) um dos actos mais críticos de intervenção cultural na sociedade, como agora pretendemos fazer com este espectáculo, que põe em causa novas coordenadas da nossa vida quotidiana não compagináveis com a confusão ideológica que paira na sociedade e em muitos governantes.

A Susana Sá e os colaboradores deste espectáculo, jovens que apontam o futuro a uma nova mentalidade em defesa do Homem, como o capital mais precioso, ao lado do experiente director artístico do TEP, Norberto Barroca, são exemplos de quem continua a defender um projecto de rigor para a defesa dos valores culturais contra a mentira. Para eles, o nosso agradecimento, extensivo a toda a equipa do Auditório Municipal de Gaia. Do Município de Vila Nova de Gaia, personificado em Luís Filipe Menezes, o nosso primeiro apoiante, a certeza de um apoio democrático e exemplar, a quem somos permanentemente agradecidos.

Por Vila Nova de Gaia! Pelo Público! Por uma Cultura Democrática! Pelo Teatro! Pelo TEP! Pelo Futuro!

Júlio Gago - Presidente do CCT/TEP

 

UMA CARREIRA AUSPICIOSA

Norberto Barroca

Foi em 2001 que conheci Susana Sá, quando frequentava as Oficinas de Teatro – Acções de Formação do Teatro Experimental do Porto . Logo notei que revelava dotes artísticos que deveriam ser desenvolvidos em prática teatral. Então, convidei-a a participar no espectáculo que o TEP iria apresentar em seguida. Tratava-se de O Amor do Soldado do escritor brasileiro Jorge Amado que, então, falecera. Decidi entregar-lhe o papel de protagonista absoluta, a figura da actriz Eugénia Câmara que no Brasil foi amante de Castro Alves, o poeta que com os seus poemas lutou pela libertação dos escravos. Eu próprio quis apadrinhar a sua estreia, interpretando um papel, embora só em condições raras tivesse trabalhado como actor na Companhia. Não tive receio de correr o risco que poderia resultar duma actriz inexperiente face a um papel de grande responsabilidade e os resultados foram positivos. A partir de então, a Susana passou a integrar, regularmente, o elenco do TEP , tendo tido a oportunidade de interpretar algumas importantes personagens de importantes autores. Uma jovem actriz que começava a sua carreira, teve a oportunidade que poucas vezes acontecem, de interpretar Luís de Sttau Monteiro, Gil Vicente, Émile Zola, Fassbinder, Ionesco e M. Clara Machado; de ter interpretado protagonistas como Lavínia de Titus Andronicus de Shakespeare, Antígona, na peça do mesmo nome (versão de António Pedro), Sally, de Samarkanda de António Gala, Maria Eduarda de Os Maias (numa adaptação minha a que acrescentei o sub-título – Crónica Social Romântica ),Branca de É Urgente o Amor de Luiz Francisco Rebello e também da única personagem feminina da peça infantil Era uma Vez… no Teatro que eu escrevi.

Logo em 2003, confiando nas suas capacidades, entreguei-lhe a Direcção de Cena da peça Felizmente há Luar! , numa das suas reposições, função que desempenhou noutras produções seguintes. Foi o ano em que interpretou a peça de António Gala.

Em 2005, fui contactado pela produção do filme Espelho Mágico , de Manoel de Oliveira, para indicar uma actriz para um dos papéis; logo sugeri o nome de Susana Sá que, efectivamente foi convidada a participar no filme. Nesse mesmo ano, depois de ter interpretado alguns papéis de relevo no espectáculo António José da Silva , interrompeu a sua actividade no TEP , tendo representado noutras companhias. Em cinco anos, a Susana tinha feito uma carreira de que poucas jovens actrizes se podem orgulhar. E, quando do regresso de Ruy de Carvalho ao TEP com a peça Morgana , em 2006, convidei a Susana para regressar à Companhia para interpretar a personagem de Rainha Gwinevere. Interpretou depois, Ibsen e Christopher Hampton.

Ainda sob a minha Direcção Artística do TEP , Susana Sá, em 2008, estreou-se numa encenação profissional. Tendo-lhe dado a oportunidade de escolher a peça a encenar, escolheu Não me Lembro de nada! de Arthur Miller, acabando por encenar também Clara , do mesmo autor (de que também fez os figurinos), num conjunto a que chamámos Memória e se integrava no “Ciclo Viagens” (que incluía ainda a peça Restos de Bernardo Santareno, estreia de José Dias como encenador profissional.)

Neste ano de 2009, o último em que exercerei as funções de Director Artístico do TEP , convidei a Susana para nova encenação. Decidiu fazer-se a comédia Pares e Ímpares que foi sugerida pela Susana. É a oportunidade de uma companhia portuguesa, estrear um autor espanhol de longa carreira e sucesso em Espanha. É uma comédia sobre o amor e os seus desencontros, sobre as relações humanas, a amizade e o actual valor do que é uma relação de amor. Com um sentido muito irónico e por vezes cáustico e amargo José Luís Alonso de Santos faz-nos pensar no que hoje representa o amor e como ele também gera desencontros, às vezes, muito mais que encontros felizes. Também hoje se desvirtualiza a amizade, a solidariedade, a lealdade e a gratidão.

Há 11 anos que tenho vindo a exercer a função de Director Artístico do TEP e tenho a consciência de ter imprimido à Companhia uma dinâmica própria, muitas vezes controversa. Revelei novos actores e dei a oportunidade de interpretarem papéis de excelência, a muitos; dei oportunidade à estreia de novos encenadores, como a Susana, o José Dias e o Rui Silva e cenógrafos, como Luís Baião, Júlia Afonseca, Cristiana Costa e José Dias; revelei novos autores em Portugal, como Robert David MacDonald, António Gala, Christopher Hampton, Jeff Baron e o próprio Jorge Amado nunca representado em Portugal como dramaturgo; agora é a vez de Alonso de Santos (de que assisti a El Alcalde de Zalameia , na C. Nacional de Teatro Clássico, Madrid), pela mão da Susana.

Neste momento que marca a minha saída do TEP , a Susana Sá faz parte da Direcção do Círculo de Cultura Teatral. Desejo-lhe um futuro brilhante nesta Companhia ou noutro local onde aconteça Teatro, de acordo com as capacidades artísticas que um dia revelou naquele não muito distante curso de Teatro feito no TEP .

Norberto Barroca, Director Artístico

 

“QUEREMOS GUERRAS SEM MORTOS. AMOR SEM DOR” (1)

Susana Sá

Pares e Ímpares apresenta-se-nos como uma comédia que nos vai revelando as peripécias amorosas de dois amigos traídos e rejeitados pela mesma mulher e as aventuras partilhadas com a vizinha do andar de cima. Mas, sob esse leve lençol escondem-se as dificuldades de viver o amor livre, de vivê-lo sempre que este se apresenta. Escrita vinte anos após a revolução que fez da sexualidade quase uma nova teologia, Alonso de Santos leva-nos a assistir, entre as racionalizações e duvidosas tentativas de suicídio das suas personagens, ao amor e ao sexo como duas forças bélicas: o binómio da possibilidade de gozar sem entraves da pulsão primária a cada oportunidade e a necessidade de fixar o afecto.

Pressionados por uma sociedade consumista, o ser amoroso tende a fugir às contrariedades da relação, a defender a sua identidade e a escapar-se às frustrações do fracasso, investindo no amor como num mercado de capitais. Ambos são volúveis. As acções. As pessoas.

Da prioridade absoluta à satisfação imediata, do “ignóbil desejo de ser amado”, de que falaram Deleuze e Guattari, passámos para o tempo da extrema exigência no relacionamento: deseja-se a paixão desregrada e a segurança, a fidelidade e as vertigens da atracção, a família e a liberdade total. A historiadora Mona Ozouf refere o reverso da liberdade como sendo a angústia de viver, a dificuldade de ser e a impossibilidade de encontrar, fora de si mesmo, a razão de um fracasso amoroso. O autor fala-nos da responsabilidade e da solidão, prescrevendo-nos a literatura, a amizade, uma boa noite de sono e o humor. Abrevia os porquês: “Há homens e mulheres que se separam porque se cansam de ver sempre as mesmas caras de imbecis, de levarem cotoveladas na cama e de discutir sobre qual dos dois faz mais coisas e se sacrifica mais. O copo enche-se a pouco e pouco… É tudo. É doloroso, mas é normal e habitual.” (fala de Frederico).

Substitui a (já enterrada) mulher rousseauniana que tinha em si o gosto de agradar e um pudor natural, passivamente à espera da iniciativa e galanteio masculinos, por uma mulher que sabe o que (não) quer, não se inibindo do primeiro passo. Inventa-a em Nines, a vizinha apaixonada pela cultura egípcia, tão em voga nos anos oitenta, porque “…a gente ali é mais livre, mais animal.” . Dá-lhe uma “descartabilidade” amorosa, desenha-a com as reminiscências de Alexandra Kollontai que dizia que “O acto do amor devia ser banal, como beber um copo de água a meias .” E atribui-lhe a independência: “Apaixonei-me de verdade.(…) Claro que agora o problema é o Roberto (…) Eu, ao fim e ao cabo, só estive com ele uns dias. E por uns dias não vou ter de carregar com ele a vida inteira, não é? É diferente de mim e muito chato...” (fala de Nines).

Num agora que, muitas vezes, vê confundir-se o desejo com o amor, fazendo deste quase uma decisão e, do ser amante, um equilibrista, deixo-vos Pares e Ímpares , longe de filosofias, a oferecer-nos o riso perante esta ansiogénica passionalidade:

“Amor, amooor…Sem ti não consigo viver, e contigo ainda menos.” (fala de Roberto) .

E como somos herdeiros desses Maios, o processo de trabalho desenrolou-se numa equipa a pensar sobre o seu reflexo no presente, volvidos quarenta e um anos, numa salutar partilha de ideias e experiências. Para os meus colegas actores um abraço e um obrigada: Isabel pela tua espontaneidade, Rui pela tua atenção e amizade e Zé pela tua obstinação. Agradeço, também, ao cenógrafo Luís Baião pelo seu entusiasmo e profissionalismo; a Onofre Varela pelas suas caricaturas; ao Tito Machado e à Helena Dias pelas suas radiofónicas vozes; assim como à solicitude da Joaquina Garcia, à disponibilidade de José Monteiro e ao Mário Sobreira pela sua sabedoria e incansável generosidade.

Quero agradecer, em especial, ao Júlio Gago, Norberto Barroca e Mário Garcia por este convite, pelo renovado voto de confiança do qual espero estar à altura, assim como a toda a equipa do TEP (Vidal Valente, Eduardo Brandão, Cândida, Eugénia e Ana) e do Auditório Municipal de Gaia.

Susana Sá - Encenadora

(1) Dominique Simonnet

 

JOSÉ LUIS ALONSO DE SANTOS - AUTOR

José Luis Alonso de Santos

José Luis Alonso de Santos nasceu em Valhadolide, em 1942. Actor, escritor, dramaturgo e encenador, vive em Madrid desde 1959. Licenciou-se em Filosofia e Letras (Psicologia) e em Ciências da Informação (Imagem). Fez um curso de estudos teatrais, no Teatro Estúdio de Madrid, com professores como Miguel Narros, Maruda López e William Layton, pioneiro do método de Stanislawski em Espanha, de quem foi assistente de encenação em Noite de Reis , de William Shakespeare, em 1967. É professor catedrático de Escrita Dramática, na Real Escola Superior de Arte Dramática, em Madrid, da qual já foi director. Entre 2000 e 2004 foi director da Companhia Nacional de Teatro Clássico.

Ao longo da sua carreira escreveu argumentos para o cinema (incluindo a adaptação cinematográfica das suas peças La Estanquera de Vallecas , realizado por Eloy de la Iglesia, Bajarse al Moro , de Fernando Colomo, e Salvajes , de Carlos Molinero); guiões para televisão (em que se inserem Eva y Adan , Agencia Matrimonial , e adaptação de peças suas, onde se inclui Pares e Ímpares , apresentado no I canal da TVE em 2004); livros infantis, textos de ficção,(como Paisage desde mi Bañera , El Romano ou Una de Piratas ; obras teóricas sobre teatro ( Teatro Español de los 80 , com Firmin Cabal, La Escritura Dramática, Manual de Teoria e Práctica Teatral , e estudos para revistas como a “Primer Acto”, “ADE”, “El Público”, etc).

Como actor, teve a sua estreia profissional em 1964, em O Processo sobre a Sombra do Burro , de Friedrich Dürenmatt. A partir daí, a sua vida teatral esteve ligada a diversos grupos de teatro independente, como o TEI (Teatro Experimental Independient), o Tábano, o Teatro Libre de Madrid (criado por si, na Universidade Complutense de Madrid, e depois, autonomizado, onde levou à cena o seu primeiro trabalho dramatúrgico, El Auto del Hombre , a partir de Calderon de la Barca, e, também, o seu primeiro texto, Viva el Duque, Nuestro Dueño , 1975, estreado na véspera da morte do ditador Franco).

Em 1988, criou a sua própria produtora teatral “Pentación”, com Margarita Piñero, Gerardo Malla, Rafael Alvarez, “El Brujo” e Jesus Cimarro, com a qual estreou Pares e Ímpares . Como actor tem tido inúmeras participações, e como encenador levou à cena, muitas vezes em adaptações suas, autores como Brecht, Aristófanes, Synge, Calderon de la Barca, Pío Baroja, Valle Inclán, Plauto, Shakespeare, Carlos Arniches, Lope de Vega, Molière, Agustin Moreno, para além de vários textos seus.

Personagem transversal às várias vertentes da sua afirmação pública, tem sido, entretanto, como dramaturgo que a sua personalidade se tem afirmado de uma forma mais vincada. Em 2008, a editora espanhola Castalia publicou, em dois volumes, as suas trinta peças até então divulgadas em edições separadas, e cuja lista se inclui nesta brochura. É considerado pela SGEA (sociedade espanhola de autores) um dos autores espanhóis mais representados. Desde 1977, ano em que recebeu o prémio Cidade de Valhadolide, tem sido contemplado com os principais prémios do teatro espanhol Gayo Vallecano (1981), Tirso de Molina (1984), Rojas Zorrilla (1985), Prémio Nacional de Teatro (1986), Cidade de Cazorla (2003), Max (2005), etc. É o dramaturgo espanhol com maior número de prémios actualmente.

José Luís Alonso de Santos, incompreensivelmente, é pela primeira vez levado à cena por uma Companhia Portuguesa, nesta produção do Teatro Experimental do Porto .

NOTA DO AUTOR, SOBRE PARES E ÍMPARES

Ah! O Amor! Doce inimigo, doença contagiosa que pode entrar por qualquer um dos nossos orifícios e concavidades até chegar ao sítio escuro do coração.

Causou à humanidade dolente mais felicidade e mais sofrimento do que todas as outras invenções juntas, com que fomos dotados pela natureza para combatermos o tédio.

Foi cantado pelos poetas, provocou mais guerras do que Filipe II; está para além de nós, lutando todos os dias com o tigre que temos em cada um e com os que esperam ao nosso redor para completar a lide.

Como uma criança perversa e glutona, goza com o proibido e reprova-nos, por dentro, quando não lhe damos os doces desejados.

Muitas coisas se disseram sobre ele ao longo dos tempos, para continuarmos a saber tão pouco: que arde como o álcool sobre as feridas e que vivendo com ele não somos prudentes, mas, é loucura viver sem viver com ele. A terminar: “Isso é amor. Só o sabe quem o experimentou”…

(Em edição da Obra Teatral , em dois volumes, Editorial Castalia, com o apoio da Câmara Municipal de Valhadolide)

 

------> clicar para abrir a brochura da "PARES E ÍMPARES "

 

F - EXPOSIÇÕES JÁ EFECTUADAS

TEP – 10 ANOS EM GAIA

Inaugurada em 30 de Abril, pelas 22H00M, no foyer do Auditório Municipal de Gaia, esta exposição foi vista até 17 de Maio de 2009, diariamente entre as 15H00M e as 23H00M; (com entrada condicionada nos horários dos espectáculos).

Inserimos, em seguida, o programa da exposição.

Clicar aqui para visualizar o programa

 

“TEP – 10 ANOS EM GAIA”

Cerimónia de assinatura do Protocolo entre a

Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e o CCT/TEP em 27 de Março de 1999

_

Exposição retrospectiva no foyer do Auditório Municipal, nos dez anos do Teatro Experimental do Porto em Vila Nova de Gaia, um itinerário que alterou positivamente a trajectória da nossa companhia. Esta exposição foi apresentada em período coincidente com o espectáculo “Nova Gaia d'Ouro”, entre 30 de Abril e 17 de Maio de 2009.

 

"JÚLIO RESENDE - HOMENAGEM DO TEP ”

_

Figurinos inéditos de Júlio Resende para “Antígona”, de Jean Anouilh – espectáculo não concretizado pelo TEP

Júlio Resende foi um dos mais ilustres colaboradores do Teatro Experimental do Porto nestes 56 anos de existência, e foi homenageado na data do aniversário da estreia do primeiro espectáculo do TEP – 18 de Junho, com uma cerimónia pública e uma exposição, a partir do espólio do TEP, mas, que integraram outras obras do autor, provenientes de O Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, Seiva Trupe e Norberto Barroca. A cerimónia e exposição decorreram na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia. A exposição esteve patente entre 18 de Junho e 31 de Agosto de 2009.  

G - IV Oficinas de Teatro – Acções de Formação

 

As IV Oficinas de Teatro-Acções de Formação do TEP tiveram a sua calendarização entre 09 de Fevereiro e 24 de Abril de 2009. As inscrições terminaram em 05 de Fevereiro de 2009. Destinaram-se apenas a associados do CCT/TEP, embora fossem permitidas inscrições para novos sócios que só assim as puderam frequentar, pagando previamente a quota anual de 30,00 euros. Para a frequência das mesmas os inscritos pagaram uma quota suplementar de 150,00 euros.

Os candidatos tiveram uma idade superior a 16 anos .

As acções de formação decorreram em horário pós-laboral, às segundas e terças-feiras, entre as 21H00M e as 24H00M, e, às quartas-feiras, entre as 20H00M e as 23H00M, no seguinte quadro:

 

Tiveram apenas o módulo de Interpretação, com as disciplinas de Interpretação, Expressão Vocal, Expressão Corporal, Caracterização e História do Teatro, e culminaram com a realização de um Exercício Prático Final, apresentado ao público, no Auditório Municipal de Gaia, em 24 de Abril de 2009, pelas 21H45M.

Com estas IV Oficinas de Teatro-Acções de Formação, o Teatro Experimental do Porto pretendeu encontrar novos talentos para futuras produções, e, ao mesmo tempo, apoiar o teatro de amadores, nas suas vertentes associativa e escolar. Um quadro profissional e rigoroso de formadores avaliou a prestação dos formandos.

No próximo ano, e, em princípio, no mesmo período do ano, decorrerão as V Oficinas de Teatro-Acções de Formação.

Juntamos, em seguida, o programa do Exercício Prático Final.

Clicar aqui para visualizar o programa